Tribal versus Apropriação Cultural

Em meio a polêmica dos turbantes, as tribaldancers manifestaram sua posição sobre o assunto: até onde podemos ir na liberdade criativa da fusão sem invadir o território do outro? Quando é hibridismo e quando é apropriação cultural?

Rebeca Piñeiro, Sister Studio FCBD® é adepta do uso de turbantes

O tema virou pauta para debate nas salas de dança, e então, Paula Braz lançou uma postagem pública em sua rede social trazendo o questionamento, “a carapuça serviu afinal no Tribal” – a Cia Shaman Tribal realiza fusões com danças afro-brasileiras sendo que na cia só tem negras de sangue (netas e bisnetas), mas não de pele. Além disso, ainda com as palavras da Paula, turbante para a mulherada do Tribal é recorrente, tanto os de estilo africano quanto os de estilo árabe, “quando buscamos retratar nossa ancestralidade, buscamos aquelas mais antigas, e é impossível não recorrermos à África!”.

“(…) no Tribal Fusion estamos sempre no risco de apenas consumir superficialmente o ‘exótico’ de outra cultura. A alternativa plausível é um envolvimento sincero com aquilo que deseja entrar no próprio trabalho de fusão.” Bela Saffe

Segundo Ana Paula Medeiros, quando dançamos, fazemos parte de um processo de aculturação e ressignificação: a dança aqui não tem o mesmo significado que nos países afro-asiáticos e não podemos pensar que sabemos exatamente o que uma bailarina egípcia passa por simplesmente fazer a escolha de dançar.
“Acredito que na questão de apropriação cultural é importante diferenciar as ressignificações e aculturação da apropriação. A apropriação não é feita por indivíduos, mas por um sistema.” Ana Paula Medeiros
Para Natália Espinosa, existe uma diferença entre usar o turbante como acessório de moda e usar numa apresentação de Tribal. “O turbante para nós, dançarinas de tribal, é um símbolo de força e ‘realeza'”. O turbante, na Índia, é um acessório masculino, uma forma dos homens mostrarem que são importantes. Ao “apropriar-se” desse acessório no Tribal, Masha Archer teve como intenção empoderar as mulheres.
Masha Archver (via Gilded Serpent)

“Nosso contexto não é de esvaziamento e sim de re-significar. (…) Se formos tomar o turbante como apropriação cultural, todos os elementos que utilizamos em nosso vestuário seriam apropriação.” Natália Espinosa

Para Walkiria Eyre, turbante é só um pedaço de pano, assim como sushi é arroz enrolado em alga e música é um som que sensibiliza o tímpano agradável: “As coisas são só coisas. As pessoas são só pessoas. O valor agregado – história, sentimentos, emoções, mentiras, mitos, lendas, verdades – é a mente que gera. O nosso interpretar é só isso, uma interpretação coberta de convenções, moral, costumes. “
 
A dançarina brasileira Esmeralda Colabone é conhecida por usar turbantes e dançar de salto alto.
O certo é que vivemos num país multicultural, todos os dias todas as pessoas fazem uso de simbolismos culturais, desde a comida, até as roupas e costumes – como disse Virgina Jubran – se não podemos usar turbante, então também não podemos fazer Yoga ou praticar Kung Fu: “Acho que ao invés de pensar em reunir, estão pensando em dividir. E se todos os seres querem igualdade, se fizer divisão nunca iremos sair da bolha”.
 
Até a utilização do termo “tribal” entrou na roda.
A companhia de dança Luciterra (Vancouver/Canadá) é um dos grupos que não fazem mais uso do termo “tribal” e até mesmo “belly dance”. Numa carta publicada em setembro de 2016 destinada aos alunos e futuros alunos da escola, a companhia justifica esta escolha (veja aqui).
Com suas próprias palavras, numa tradução livre, Luciterra está a mais de oito anos ensinando um estilo de dança que tem se tornado cada vez mais difícil de categorizar, os alunos se perguntam como devem chamar essas aulas ou como descrevê-las – situação bastante comum para quem é professora. “Desde 2013, estamos cada vez mais preocupados com a participação da Luciterra na apropriação cultural”, foi neste ano que abandonaram o termo “belly dance” e, desde então, a companhia vem fazendo uso de uma série de rótulos, incluindo “theatrical dance”, “contemporary cabaret dance”, “urban contemporany” e muitos outros.
A Luciterra Dance Company não utiliza termos como “Tribal” ou “BellyDance” para descrever seu estilo de dança
Aqui no Brasil, vemos bastante o termo “Dança Étnica Contemporânea” como uma alternativa para o Tribal, mais compreensível para o público leigo. O termo “Modern Fusion Belly Dance” também foi adotado no estrangeiro.
O assunto é recorrente no nosso meio. Logo em 2008, Luciana Carlos Celestino levanta a pauta em seu artigo sobre a bricolagem da Dança Tribal: “usando tudo que está à mão (bricolagem) a Dança Tribal cria e recria, unindo culturas (marchetaria), tendo como principal proposta a reciclagem em seu amplo contexto.”, e é exatamente isso que a torna tão especial para nós. (leia mais aqui). Num outro post aqui do TA, trouxemos a tradução de um artigo que questiona a utilização do termo “gypsy” (aqui).
Mas e você, qual a sua opinião sobre este assunto?

Melissa Art

Melissa Art

Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Comunicóloga em formação, atua com assessoria de mídias sociais para empreendedores e artistas.
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