Caçadora de Tornados

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Inquieta, impaciente e ativa: é assim que Ana Harff se define. “Nunca consegui manter o foco em uma coisa apenas, preciso mergulhar de cabeça em várias atividades para me sentir minimamente completa. E nesse caminho escolhi as artes: a dança, o artesanato e a fotografia, minha última grande paixão.” Sua infância e adolescência se resume às frequentes mudanças com a família, a cada 2 anos estavam num estado diferente e, desta maneira, conheceu todo o Brasil “e toda a beleza da inconstância que esse tipo de vida pode trazer.”. “Tenho certeza de que isso me moldou muito como pessoa e ainda é o que me leva a estar sempre buscando conhecer coisas novas.”, conclui ela.
Todavia, seu pai se aposentou quando Ana tinha 19 anos e, de repente, aquela rotina de mudança e coisas novas foi deixando de acontecer. Aos 20 anos, a carioca largou a faculdade de Jornalismo e foi morar na Argentina, local que não conhecia até se mudar para lá e onde reside até então. “Na época dançava com a Shaman Tribal e confesso que ter que deixar de dançar com essas mulheres foi o que mais me entristeceu na época, mas a mudança era necessária, então resolvi fazer as malas e ir”, relembra ela. O que era para durar 6 meses, está quase se tornando 7 anos. Neste período, começou o curso de Arqueologia pela Universidade de Buenos Aires – mas não finalizou, e se casou com um argentino.
De aspirante à caçadora de tornados, detetive forense, arqueóloga e jornalista a fotógrafa, tribaldancer, tradutora e artesã, conheça mais sobre a personalidade inconstante de Ana Harff, uma artista que não gosta de rótulos, em sua entrevista com o Tribal Archive:

“Concentre-se na música que está tocando, e nela encontrará espaços para uma linda foto de dança.” – Ana Harff
Click por Pico Márquez

Tribal Archive: Quando você iniciou na carreira de fotógrafa e como é percorrer este caminho?

Ana Harff: A fotografia caiu quase que como um paraquedas na minha vida. Desde que me conheço por gente gosto de fotografar, mas nunca pensei em usar isso como profissão até ano passado (2015). Nas nossas viagens de carro pelo Brasil, meu pai sempre me emprestava sua câmera fotográfica e eu adorava tirar fotos das paisagens, principalmente das pessoas, nos lugares que passávamos.
Ano passado (2015) fui a um Hafla da minha professora como espectadora, e tendo comprado há alguns meses minha primeira câmera reflex, fui com a intenção de tirar fotos, mas sem grandes ambições, pois ainda não sabia quase nada de fotografia em si. Postei as fotos e recebi bastante comentários positivos, isso me fez repensar a fotografia como algo para seguir adiante, aprender a técnica, me profissionalizar, pois era uma maneira de continuar conectada com a dança, mesmo sem estar mais dançando.
Comecei então fotografando dança e ainda hoje é o meu assunto favorito, pois sinto que são as fotos que eu consigo tirar com mais naturalidade, principalmente pelo fato de que as bailarinas são amigas minhas ou pessoas que estão no mesmo circuito de dança que eu.

TA: Você passou por muitas áreas de conhecimentos diferentes. Quais profissões você já cogitou seguir antes de se encontrar como fotógrafa?

AH: Já cogitei mil profissões na vida, a primeira de todas, quando pequena, era caçadora de tornados, até o dia que descobri que não existia tornados no Brasil, me decepcionei e quis ser detetive forense.
Na adolescência, pensei que seria escritora, pois sempre escrevi muito, antes mesmo da dança e da fotografia, escrevia. Meu primeiro blog – que ainda existe www.anaharff.blogspot.com – tem alguns desses poemas e rabiscos.¹ Terminei o colégio e entrei no curso de Jornalismo na UFRN. No meio do caminho descobri a Dança Tribal com a Shaman em 2008 e em 2009 já me mudei para a Argentina para estudar e larguei a UFRN.
Ou seja, não virei nem bailarina, nem arqueóloga, nem escritora, nem caçadora de tornados, rsrs… Hoje em dia meu trabalho oficial mesmo é tradutora, produzo legendas para filmes e documentários. A fotografia é meu segundo trabalho, mas minha grande paixão, e espero que muito em breve seja o que ocupe 100% do meu tempo laboral.

TA: Acredito que a personalidade e intenção artística do fotógrafo são impressas em suas fotografias, portanto cada fotógrafo desenvolve seu próprio estilo de fotografar. Como você define o seu estilo?

AH: Não sei como poderia defini-lo, fotografo a apenas um ano e ainda não me considero uma fotógrafa profissional, sinto que ainda estou longe de poder me considerar uma pois há tanto para aprender e desenvolver. Geralmente fotografo o que me emociona, não fecho minha cabeça para um assunto apenas. Na minha página você pode encontrar músicos, acrobatas, bailarinos, desconhecidos, paisagens, etc., acho que é questão de momento, a fotografia de dança acabou me definindo porque é o assunto com o qual eu me sinto mais conectada geralmente, e também porque, minhas grandes amizades vieram e são do mundo da dança.
Luisana & Tribaleuse | click por Ana Harff

TA: Pela sua experiência, quais as principais dificuldades em cobrir um evento?

AH: O maior desafio para um fotógrafo de dança e espetáculos, principalmente se falamos de apresentações, não é a dança em si, mas a dificuldade técnica que esse ambiente traz na maioria das vezes.
A pouca luz é um elemento que está quase sempre presente, e para isso, você deve conhecer muito bem seu equipamento para poder tirar o máximo proveito dele. Não faz falta ter uma câmera caríssima para tirar boas fotos. Se você investir em uma lente luminosa e tiver um bom conhecimento técnico, já tem as portas abertas para inúmeras possibilidades.
Outro ponto negativo do espetáculo infelizmente muitas vezes é o público. Você como fotógrafo precisa estar super focado aos momentos das coreografias e é fato que quase sempre vai estar na primeira fila, mas sempre há quem se incomode com onde você está (às vezes temos que ficar de pé), com o barulho dos clicks, ou o clássico, colocando o celular bem no meio do enquadramento. Acho que com um pouco de empatia, muitos desses desconfortos poderiam ser evitados.

TA: E quanto a ensaios e eventos, qual seria as diferenças relevantes entre fotografar o artista em movimento e em pose?

AH: A diferença é enorme, pelo menos para mim. Não consigo trabalhar com pose, sou uma negação (tenho muito a aprender ainda). Uma das coisas que mais me deixam nervosa é quando o fotografado me olha e pergunta: “então, o que eu faço?”, porque eu nunca tenho certeza. Gosto de naturalidade, de captar o movimento. É claro que você como fotógrafo tem que aprender a guiar o fotografado, mas eu ainda estou engatinhando nesse quesito. Me sinto muitíssimo mais à vontade quando eu simplesmente sigo o artista enquanto ele trabalha no que sabe fazer, e isso dá para ver refletido nas minhas fotos, as que eu gosto mais, geralmente são as que eu menos esperava que acontecesse.

TA: Para finalizar, na sua opinião, quais competências um fotógrafo deve ter para trabalhar com dançarinos?

AH: Apenas uma: lembrar que o bailarino se move com a música, ela então será parte essencial da composição da sua fotografia. Concentre-se na música que está tocando, e vai ver que nela encontrará os espaços para uma linda foto de dança.
¹ Nota: o segundo blog de Ana Harff é o Tribal Mind, com certeza em algum momento você passou por ele.

Melissa Art

Melissa Art

Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Produtora e jornalista, atua com assessoria de mídias digitais para empreendedores e artistas.
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