Consciência pela Dança

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Nascida em Paris em 1955, Sylvie Lagache iniciou sua carreira profissional aos 17 anos como bailarina clássica, prosseguindo no balé moderno, jazz, dança africana, ioga e aikido. Aos 25 anos, deixou a França e veio para o Brasil, onde submeteu-se a variadas terapias verbais e corporais, como psicanálise, psicodrama, terapia reichiana, rolfing, euritmia e reiki. Esse intenso processo de transformação interior resultou no desenvolvimento de seu próprio método de integração corpo-mente e emoção, visando trabalhar a consciência através da dança. Mestra em teologia, Sylvie atuou em São Paulo como terapeuta corporal através de atendimentos individuais com técnicas de acupuntura e florais e transmitiu seus conhecimentos na formação de atores, além de coordenar grupos de meditação e relaxamento.

Em sua obra, “Respirando a Vida” (2004), Sylvie apresenta sua visão sobre a dança como um trabalho corporal consciente através de uma série de exercícios de respiração e relaxamento, técnicas ilustradas de mentalização, meditação e trabalhos em grupo, desenvolvidos ao longo de mais de trinta anos de pesquisa, além de contar com uma série de depoimentos de alunos e pacientes. Segundo a autora, a consciência do movimento liberta a pessoa do gesto mecânico e frio, que a aliena, e devolve-lhe a inteireza do ser, tão necessária à celebração de ritos, mas também na vivência do cotidiano, nas simples e pequenas ações do dia-a-dia.

Integração Corpo-Mente e Emoção

Hawaii Retrat with Zoe Jakes & Kami Liddle. Foto: Talltree – Wildspice Mag

Numa aula de dança aprendemos uma linguagem corporal através de um conjunto de técnicas. Treinamos essas técnicas até dominarmos e então seguimos treinando buscando uma melhora contínua. É a busca de uma performance onde a arte realizada é o objetivo. Na terapia de movimento, usamos a linguagem da dança como um meio e não um fim. A expressão corporal é um instrumento para que o praticamente possa externalizar suas emoções. A técnica está a serviço da expressão. Portanto, não há o objetivo de aperfeiçoar uma técnica, pelo contrário: os métodos são simplificados para que todos consigam executá-lo, cada um de acordo com suas possibilidades. A dança-terapia oferece a expressão corporal como um processo terapêutico, com o objetivo de restabelecer lesões, muitas vezes relacionadas à auto-estima.

A dança consciente abre caminho para um encontro com a essência, mediante a integração e a ampliação do potencial corporal, mental, emocional e espiritual. A dança também ajuda a desenvolver essa conscientização, utilizando técnicas de respiração, voz, música, alongamento, alinhamento ósseo e dos centros energéticos – os chakras – , soltura do movimento, harmonia consigo mesmo, com o outro e com o grupo.

Como Sylvie aponta, a dança consciente atua em diferentes planos:

  • Físico: mediante a percepção e liberação das tensões;
  • Emocional: mediante a liberação dos bloqueios;
  • Mental: mediante a ruptura dos padrões mecânicos;
  • Espiritual: mediante a abertura dos centros energéticos.

A importância do trabalho corporal na vida moderna

A meta do trabalho corporal é a consciência sensorial, como Sylvie explica: emoções negativas como ansiedade, depressão e agressividade são resultados do estilo de vida moderno. O cansaço acumulado provoca estresse, desequilibra o sistema nervoso, dificulta a concentração e traz consequências físicas. Muitas pessoas buscam compensações por meio do uso de drogas, bebidas alcoólicas, sexo sem amor ou consumo digital exacerbado só para distrair a mente. Sofremos também com a diminuição das fontes naturais: o sol tornou-se perigoso com a desobstrução da camada de ozônio; as frutas e legumes recebem tantos agrotóxicos para crescer que acabam perdendo suas propriedades naturais; as carnes são impregnadas de hormônios e as grandes cidades nos intoxicam com o gás carbônico dos carros e fábricas.

Nós não somos nem precisamos ser vítimas. Temos o livre-arbítrio para decidir se queremos cuidar de nós mesmos ou não.

Somos um todo. Não adianta trabalhar apenas a parte espiritual e não cuidar da saúde; ou cuidar apenas do corpo sem desenvolver uma maturidade emocional. Trabalhando os três planos – corporal, mental e emocional – aumentamos as chances de ser mais completos e equilibrados. Como o trabalho corporal pode ajudar? Trazendo concentração, força e leveza para o nosso dia-a-dia em 5 passos:

  1. Após as primeiras sessões, apresentamos uma mudança de hábitos, diminuindo as quantidades e melhorando a qualidade dos alimentos, mais por uma necessidade espontânea do organismo que por uma decisão racional.
  2. Depois percebemos nosso próprio corpo, não conseguimos mais ignorá-lo, pois já sabemos o que é bom e o que é ruim para nós mesmos. Consequentemente, passamos a nos respeitar mais, desenvolvemos amor próprio.
  3. Os movimentos de abertura e expansão praticados nas aulas mudam também nossa noção de espaço, que se reflete no cotidiano. É comum começarmos a tirar o excesso de objetos em casa para nos movimentarmos mais livremente.
  4. Notamos o esforço que fazemos para realizar atos corriqueiros, desagastando uma energia desnecessário, como bater a porta em vez de simplesmente fechá-la. Aprendemos então a usar menos força, a se cansar menos, a ser mais leve.
  5. Desenvolvemos empatia. A princípio, percebemos o outro quando somos tocado, depois quando a pessoa está a alguns metros de distância, depois no meio de uma multidão, por “telepatia” – que nada mais é do que a ampliação da nossa percepção. Nos importamos com o próximo, nos colocamos no lugar do outro.

Por fim, passamos a nos proporcionar experiências prazerosas e revigorantes, por meio de uma alimentação saudável, uma caminhada na natureza, um banho de mar, ouvindo uma boa música, pintando, dançando, meditando, orando, buscando a felicidade dentro de si, explorando o potencial criativo e espiritual.

Dança, Terapia e Ritual

Shaman Tribal em Dançando nas Dunas

Ao trabalharmos corpo e alma como um todo integrado, construímos um corpo sensível – uma visão pouco explorada por bailarinos clássicos e contemporâneos, que buscam essencialmente a perfeição. Apenas treino muscular não é suficiente para alcançar essa harmonia.

Quando falamos em terapia corporal, logo pensamos em tratar o corpo, sendo este, no processo terapêutico, um mero instrumento para alcançar a alma. (p. 44)

A dança consciente exige um envolvimento total, orgânico. Como classifica Sylvie Lagache, nós temos a necessidade de atuar em três planos: em cima, embaixo e no plano horizontal; e nas três dimensões: vertical, horizontal e profundidade, formando o todo:

  • Movimentos retos expressam decisão, objetividade, energia vital, o masculino.
  • Movimentos circulares expressam flexibilidade, graça, expansão, amor, o feminino.
  • Movimentos para o alto expressam o ideal, a espiritualidade, a comunhão com o celestial, a energia cósmica.
  • Movimentos para baixo expressam sensualidade, descarrego, contato com a terra, enraizamento, energia telúrica.
  • Movimentos horizontais expressam coração aberto, atitudes de dar e receber.
  • O sentido vertical é o nosso eixo, a nossa ligação com o céu e a terra.

O trabalho corporal aliado a uma alimentação saudável e atendimentos terapêuticos regulares eleva nossa qualidade de vida e beneficia nosso estado físico, mental e espiritual. Fazer uma massagem integradora suave, acompanhada de alguns exercícios energéticos de respiração, por exemplo, alivia nossas dores musculares provocadas por tensões emocionais e desintoxicam nossas articulações, nas quais estão depositados resíduos que provocam inflamações. Buscar um profissional ou contar com o apoio de amigos e familiares para aliviar nossas angústias e incertezas também ajuda. A medicina floral, bem como a acupuntura ou outras formas de medicina energética, ajuda a elevar as nossas vibrações. O importante é relaxar: sabendo como fazê-lo, podemos evitar o desgaste físico, emocional e mental.

Dancer’s Way Retreat with Illan Riviere

O número de artistas e terapeutas que utilizam a dança tribal como uma ferramenta de autoconhecimento, aliada à práticas ritualísticas em encontros de mulheres em busca do sagrado feminino tem crescido cada vez mais no Brasil. Para citar alguns trabalhos:

  • Anath Nagendra, colaboradora aqui do Tribal Archive, de Porto Alegre-RS, trabalha a dança tribal como ferramenta para o autoconhecimento e para a espiritualidade através de atividades que permitam a descoberta do corpo e exploração do movimento.
  • Realizado em Aquiraz, Ceará, no início de novembro, com participação de Alinne Madelon, o Festival Madre Terra é descrito como um encontro de auto-conhecimento e reconexão da mulher.
  • Samaa Hamraa, facilitadora de dança meditativa e colunista do blog Garota Empreende, desenvolve trabalhos e promove encontros em espaços terapêuticos diversos da região de Santos-SP.
  • O coletivo Mulheres Selváticas, com sede em São Paulo-SP, promove encontros, vivências e cerimônias com dança ritualística e a Medicina do Cacau. Fazem parte do grupo Marilia Lins, Gabriela Nery e Nara Navarro.
  • Também tenho um projeto em desenvolvimento, Mulheres que Dançam, com encontros regulares, produção de reportagens e, futuramente, um retiro de dança e terapias integrativas.

A riqueza das aulas regulares em grupos

Zamzibar Dance Studio

Uma aula em grupo pode ser dividida em oito etapas, que promove, nesta ordem, a limpeza, abertura, soltura, alinhamento, integração e ampliação dos sentimentos e sensações através do movimento corporal.

  1. Limpeza energética: por meio da respiração forte, libertamo-nos das cargas e tensões. Essa preparação ajuda a desintoxicar os músculos, a limpar o campo etérico, a descarregar e esvaziar a mente dos problemas do dia-a-dia.
  2. Alongamento: os exercícios de alongamento ajudam a abrir espaço entre as vértebras e as articulações, desobstruindo os espaços interno, como se elas fossem lubrificadas. Os alongamentos ajudam a relaxar e estimulam os canais energéticos ligados aos órgãos e às vísceras. Alongar a coluna estimula o sistema nervoso e a bexiga; alongar as pernas estimula o estômago, o baço, o pâncreas, os rins, a vesícula biliar, o fígado e o sistema nervoso; alongar os braços estimula os pulmões, o intestino grosso, o coração e o intestino delgado.
  3. Isolamento: por meio do movimento corporal e com a música, descobrimos a autonomia e a expressão de cada parte do corpo. Na caixa torácica, trabalhamos as emoções e os sentimentos. Na região abdominal, entramos em contato com nosso centro vital. E assim por diante em relação aos pés, aos braços, às mãos, à cabeça.
  4. Improvisação: através de movimentos livres e soltos, abrimos espaço para as fantasias, os conteúdos emocionais pessoais, as sensações, as imagens despertadas pela música.
  5. Coreografia: movimentos dirigidos, conscientes, que requerem coordenação motora para ligar a parte superior do corpo com a parte inferior.
  6. Comunhão: entrando em contato com o outro, seja por meio do toque ou de movimentos de troca, aprendemos a conduzir e a ser conduzidos, a ouvir e a sentir o outro, exercitando o envolvimento e a entrega, dar e receber.
  7. Dança circular: em roda, fazendo os mesmos movimentos, sintonizados, fortes e repetidos, todos unidos pelo ritmo, pelo som e pela respiração, ascendemos a dança como ritual, encerrando o trabalho com um canto de alegria, agradecimentos ou recitando um mantra.
  8. Relaxamento: deitados no chão, relaxamos, descansamos, digerimos o que acabamos de vivenciar e refletimos sobre as coisas que sentimos, num estado ampliado de consciência.

Em resumo, uma aula de dança tribal pode explorar tudo isso: a descoberta do corpo; a respiração; o trabalho sensorial; o ritmo; a conscientização e abertura da caixa torácica bem como a conscientização e soltura da região pélvica; pontos de apoio e equilíbrio através do contato dos pés com o chão; coordenação motora; integração e reestruturação corporal, dentre outras técnicas e métodos.

Quais dessas atividades você vivencia em suas aulas de dança? Ainda que não necessariamente na ordem descrita acima, ou todo este conteúdo numa única aula. Quais você gostaria de vivenciar? Compartilhe conosco.


Referências:

Lagache, Sylvie. La differénce entre la danse et la danse-mouvement-thérapie. Disponível em <//artherapievirtus.org/DMT/la-difference-entre-la-danse-et-la-danse-mouvement-therapie> . Acesso em 21 de novembro de 2017.

_____. Respirando a vida: iniciação para um trabalho de integração corpo-espírito. São Paulo: Paulinas, 2004.

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Melissa Art

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Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Produtora e jornalista, atua com assessoria de mídias digitais para empreendedores e artistas.
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