Dos Ombros para os Quadris

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Carolena Nericcio
Independentemente se for um lenço de voil com crochê e moedas ou um xale triangular com muitas franjas, fato é que nós, bailarinas, nos sentimos quase como nuas se não tivermos algum adereço no quadril nos momentos de dança.
E quando você se vê apressada para alguma aula e não encontra nada à mão a não ser aquele cachecol de tricô pendurado no cantinho do armário? Vai ele mesmo! Ou talvez você tenha opções mais restritas, e quando vê percebe que usa no quadril o mesmo lenço que usa como echarpe pra sair pra jantar! E aquelas pashminas enormes? Usar como xale, lenço de quadril, faixa estilo indiano ou amarrar um turbante na cabeça? Que tal de todas as formas?

Uma das belezas da Dança Tribal é a criatividade e flexibilidade no uso e construção do figurino, principalmente quando falamos nos estilos mais “clássicos”, onde a regra é “quanto mais, melhor”. Mas, para sabermos bem o que estamos fazendo ou o que queremos construir em um figurino, o ideal é que saibamos, ao menos um pouco, as diferenças entre cada uma destas peças, que muitas vezes chamamos pelo mesmo nome: lenço, echarpe, xale, manta, pashmina, etc.
Vale ressaltar que a ideia aqui é embasar o entendimento do que é a peça original, e não de restringir seu uso. Não só podemos utilizar como bem entendermos – ainda mais se falarmos de figurinos – , como hoje em dia várias destas peças são usadas de maneiras mais abrangente, inclusive variando bastante nos tipos de tecido, o que faz com que algumas peças sejam difíceis de classificar.

  • Lenço: é um quadrado de tecido, que pode ter qualquer tamanho, assim como tipo de tecido, mas sendo mais frequentemente usado com algodão, cetim ou seda. É um dos acessórios mais multifuncionais que existem, podendo servir apenas como estética – e ser usado de diversas formas, como no pescoço, amarrado em bolsas, cintura, etc. – e até para fins não relacionados à moda, como envoltório de cestinhos de piquenique até o antigo lenço para assoar o nariz.
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  • Echarpe: aqui, o corte do tecido é longo, retangular e estreito, feito com tecidos leves, como seda, crepe, cetim, entre outros. Geralmente usada como acessório visual, amarrada no pescoço ou simplesmente caída sobre os ombros.
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  • Cachecol: semelhante à echarpe, porém normalmente feito em tricot e com tecidos mais pesados ou quentes, pois seu uso frequentemente é usado para aquecer a região do pescoço em dias frios.
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  • Estola: hoje em dia é desconhecida por muitos, pois geralmente é usada em eventos mais sofisticados. É uma faixa larga e retangular, feita de tecidos nobres – antigamente, peles de animais, hoje usado com peles sintéticas ou lãs finas – , e que cobre as costas e os ombros.
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  • Pashmina: apesar de ter se popularizado desta forma, “pashmina” na verdade é o nome do tecido que forma a peça, e não esta em si. Normalmente o corte é semelhante a cachecóis ou mantas, porém mais largos, sendo usados nas costas, ombros, pescoço, braços, etc. O material deste tecido é a lã cashmere, que pode ser usada pura ou mesclada com outros tecidos para compor a peça.
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Porém, se irmos um pouco mais a fundo, descobriremos que “pashmina” e “cashmere” se referem a dois tipos de tecido. Ambos são feitos com lã de cabras da região dos Himalaias e arredores, sendo que cada uma é feita com o pelo de uma espécie diferente. Em todo caso, as “pashminas/cashmeres” caíram nas graças das Tribalescas justamente por carregar um pouco da cultura indiana. Prestando atenção, você perceberá a frequência dessa peça nos turbantes do ATS®, e também atravessada no tronco em performances de Indian Fusion, por exemplo.

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  • Xale: o corte dessa peça pode ser tanto quadrado quanto triangular, mas é frequentemente usado na forma do triângulo (dobrado ao meio, no caso de um corte reto). Parecidos com mantas, porém geralmente maiores de mais variados em seus tecidos, tanto leves quanto pesados. Também são diversos em seus acabamentos, que podem ser bordados, aplicações ou franjas. Normalmente usados nos ombros, protegendo as costas e os braços.
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Esta peça foi outra fortemente adotada no estilo Tribal, sendo também comum ver versões em tricot, com formato de rede e longas franjas. Além disso, a história dessa peça mostra um simbolismo bastante ligado ao feminino, algo que tanto lidamos dentro do meio da dança.
Aparentemente, esse estilo de peça é e foi usado por mulheres de todos os lados e tribos, frequentemente com o intuito de proteger, aquecer e embelezar. As mulheres Incas, por exemplo, prendiam seus xales com um broche, chamado “tupus”, que auxilio arqueólogos a identificarem gêneros em estátuas e múmias preservadas. Índios norte-americanos chamavam a conexão com ensinamentos ancestrais de “Tomada do Xale”. O adereço também já foi relacionado aos braços da Mãe Terra, visando o simbolismo da proteção materna, como visto na cultura celta, com “Brigid, a Senhora do Manto”. Ainda, o xale também era usado em partes do corpo que estivessem doloridas ou feridas, como instrumento de ajuda na cura e conforto.
Imagem: Pinterest
Agora podemos pensar mais minuciosamente as nossas construções de figurinos quando envolverem quaisquer dessas peças! Também no sentido contrário, como levar a cultura e estética Tribal para a moda do dia a dia. E fica a dica de pesquisar um pouco sobre a história e o simbolismo de alguma delas – podemos nos surpreender!

Fontes

Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.
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