Em um Relacionamento Sério com o Corpo

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Sabe aquela dorzinha chata nas costas? Aquela câimbra recorrente na panturrilha? Ou aquela dor aguda no diafragma? Estes são alguns exemplos cotidianos que podemos encontrar nas nossas vivências com o corpo ao longo da vida, e principalmente nas nossas práticas de dança. Além desses, também encontramos aquele probleminha crônico no joelho, dores incômodas no ciático, dores de cabeça pelas tensões nos ombros, ou ainda lesões mais graves na coluna.

Todos estes exemplos, por mais comuns ou raros que sejam, surgem no corpo, e podem ser vividos por qualquer um, em qualquer estilo de vida. E nós, dançarinas e outros profissionais que usam o corpo como ferramenta, estamos especialmente expostas à esse tipo de coisa. A questão é: mesmo as pessoas que se dedicam a cuidar do corpo – com exercícios e alimentação – tendem a apresentar algum tipo de problema físico em algum momento. Porque? Teoricamente, esses estilos de vida deveriam minimizar esses fatores, não? Talvez você responda: “ah, mas elas exageram nos exercícios e acabam se lesionando.”. Verdade. Porém, o problema é mais complexo, pois sempre encontraremos exceções aqui e ali, pessoas que sempre procuraram trabalhar de maneira mais gentil e cautelosa… e que ainda assim podem se machucar.

Na série a seguir iremos apresentar dicas e discutir sobre os variados fatores que envolvem essas questões do universo físico do corpo, e como alguns deles estão enraizados nos nossos pensamentos culturais – e portanto, mais complicados de se perceber e evitar. O foco será no universo da dança tribal, mas tenha em mente que todo o conteúdo é válido também para praticantes de outros estilos de dança, outras atividades físicas (como musculação e yoga), práticas caseiras de alongamentos e também para sedentários!


Seu corpo não é uma máquina

Muita gente percebe seu próprio corpo como uma máquina biológica cuja única função é sustentar a mente. Em certo sentido, não podemos negar que sim, nossos corpos são um complexo agregado de órgãos que agem analogamente às engrenagens de uma máquina. O problema desse tipo de visão é que, quando ocorre um problema – uma lesão, uma doença, algum desconforto – tendemos a ficar bravos tal como quando um computador não funciona bem, por exemplo, pois aquele objeto *deve* funcionar plenamente *sempre* (segundo nossos desejos). Quando surge um problema, queremos resolvê-lo o mais rápido possível, e majoritariamente atacamos apenas o sintoma, e não a real causa. Queremos que remédios ou intervenções médicas resolvam 100% aquele problema, de maneira rápida e indolor.

Infelizmente a coisa não funciona bem assim. Nosso corpo é um ser vivo, muito mais complexo que uma máquina. E essa complexidade ainda nos é muito incompreensível, vide como mesmo as pessoas que tratam o corpo da melhor maneira possível – o escutando, cuidando da alimentação, exercitando-se, procurando cuidar das feridas de maneira completa e não apenas atacar sintomas – continuam tendo problemas aqui e ali. Mesmo considerando a entropia natural e o processo de envelhecimento – que poderia explicar os problemas que as pessoas cuidadosas vivem – ainda assim teríamos questões como o porquê que, em um grupo de pessoas que cuidam muito bem se sua saúde, há uma discrepância nas manifestações de doenças, problemas e lesões. Não deveriam elas todas apresentar problemas apenas quando a “idade” chegar?

Claro, existem N formas de se abordar e explicar esse tipo de coisa, que vão desde genética à questões kármicas, mas o ponto aqui é: não devemos buscar soluções prontas e genéricas, pois, apesar das semelhanças no funcionamento corporal de toda a espécie humana, nossos corpos acabam sendo uma manifestação de nosso ser individual. Cada um possui uma genética específica. Cada um possui uma psique personalizada. Cada um passa por emoções distintas. Cada um vê seu mundo de uma maneira. Cada um têm questões espirituais diferentes. Se nosso corpo for uma máquina, sua engenharia foi feita exclusivamente para você, mas esqueceram de te passar o manual de instruções. Assim como podemos dizer que a vida é um jogo, seu corpo é um dos puzzles mais complexos que existem, e só você poderá saber e aprender como ele funciona.

 


Sensações são a linguagem do corpo

Assumindo que o corpo não é uma simples máquina, podemos adotar a visão de que ele, de alguma forma, se comunica conosco. A primeira coisa que podemos pensar é justamente na dinâmica de sintomas: os alarmes que o corpo ativa para informar que está lutando contra alguma ameaça, ou que há algum problema, permitindo que você busque formas de auxílio. Porém, podemos ir além: assumir que qualquer sensação seja um recado do corpo. Toda sensação desagradável, como dores e desconfortos, podem ser vistas como o corpo falando que algo não está bem, que algo não lhe faz bem, e por aí vai. Enquanto que sensações boas, prazerosas e confortáveis, podem ser uma forma dele enfatizar algo que traz uma vantagem ou agrega alguma coisa.

Pensar dessa forma aumenta o nosso leque de como explorar nosso próprio corpo. Ao invés de termos apenas o “ruim”, adicionamos o “bom” e o “neutro”. Ou seja, um determinado exercício físico, por exemplo, pode nos gerar dor (ruim), prazer (bom) ou nada em especial (neutro).  Assim, temos uma ótima ferramenta para potencializar nossos treinos, aprender de maneira mais eficaz e duradoura e minimizar bastante lesões e desconfortos! Deixe seu corpo guiar você.


Limites são parte de você

Nessa jornada com o corpo certamente você irá topar com problemas relacionados a fatores limitantes. Talvez você tenha um problema de nascença que a impede de fazer um determinado movimento, ou não tem uma grande elasticidade natural e articulações soltas, ou o formato natural do seu corpo não ajuda muito na expressão de um movimento… e estes exemplos são apenas os “inatos”. Talvez você tinha tudo em ordem, mas algum acidente ou doença lhe deixou sequelas – mais ou menos graves. Arrebentou um tendão, e hoje ele não alonga como antes, bateu a cabeça e lesionou a coordenação motora no cérebro… ou pior: teve que amputar um membro.

Todos estes exemplos complicam bastante a ambição de desenvolver o corpo. É algo que está ali e não há muito o que se fazer sobre, apenas aceitar e tentar se adaptar. Como lidar?

Assim como sugerimos a mudança de perspectiva do corpo como sendo uma máquina, aqui o método é semelhante: ao invés de vermos nossas limitações como problemas, devemos vê-las como características nossas. Algo que faz *parte* de nós, de nossa história, da nossa vida e personalidade. Se você tem um quadril pequeno e estreito, desejar e invejar moças com largas ancas não lhe trará nada de bom, somente um amargor diante do próprio corpo. O mesmo vale para um membro amputado, um problema de coordenação ou articulações mais rígidas.

Seu corpo é uma expressão de você mesma! Trabalhe com isso, adapte-se, estude o que pode ser moldado e o que não. Encontrou um limite? Explore! Veja como funciona, como você reage à ele, o que ele diz sobre você mesma, que desafio lhe impõe.

O vídeo abaixo mostra um pouco do caso de Jerron Herman, que foi diagnosticado com um tipo de paralisia cerebral. Mas, ao invés de se deixar limitar pela doença, ele se tornou um dançarino profissional, explorando as capacidades de seu corpo diferenciado.

“Quando o médico me diagnosticou, eles me disseram que eu não seria capaz de me vestir, ou me alimentar… que eu iria precisar de assistência em tudo o que eu fizesse.”

“Meu corpo não é apenas… um saco, é na verdade um instrumento, pra se fazer grandes coisas.”

“Porque dança? Primeiramente por causa do diagnóstico que me deram. Meu corpo é o instrumento, e, se eu sou uma pessoa deficiente e meu corpo é o instrumento… isso é bastante audacioso.”

Ele comenta também que dizem que o arabesque dele é “louco” (no bom sentido). A paralisia afeta apenas seu lado esquerdo, e é com essa perna que ele executa o tão falado passo. Seu ponto de equilíbrio é sua perna direita. Assim, tendo plena noção de como seu corpo funciona, ele pode explorar suas bases fortes e vantagens, superando o limite dado pela sua condição.

“Tudo funciona em conjunto.”

Lembre-se: limites são conceituais, em sua maioria. Um quadril mega solto e vibrante pode ser lindo, mas isso não quer dizer que o oposto seja ruim ou feio. Movimentos delicados e pequenos são tão bem vindos quanto os amplos e impactantes!


Não force!

Parece óbvio, mas frequentemente ignoramos esse conselho na tentativa de acelerar o desenvolvimento do corpo. Todo mundo “sabe” que sempre devemos nos alongar e aquecer bem antes de uma prática física (e de relaxar com um alongamento leve logo após), mas ainda assim muita gente ignora isso achando que “não vai acontecer nada”. Ou ainda fazem uma prática de alongamento superficial achando ser o suficiente. Além disso, é comum pensarmos que o “forçar” inclui só quando fazemos algo intenso, brusco ou repentino – como, por exemplo, fazer um cambret rápido sem um bom preparo e acabar com uma lesão na coluna. Porém, lesões decorrentes de uma insistência podem ocorrer em um nível bem mais sutil.

Os corriqueiros “balacinhos”, que muitos fazem ao se alongar, nada mais são que a versão invisível dessa atitude. Micro lesões nos tendões podem limitar a capacidade do corpo tanto quanto suas versões mais graves. Mas, se prestarmos atenção, a maioria das pessoas – e inclusive nós mesmas! – acabam utilizando desse subterfúgio, que, de certa forma, expressa uma faceta típica ocidental: impaciência.

Temos enraizada na nossa cultura esse “forçar de leve”, pois não temos a disciplina, paciência e o respeito ao corpo necessários para sermos gentis e investir no ganho de longo prazo. Queremos resultado rápidos e visíveis, e esse impulso nos leva a forçar um pouquinho aqui, um pouquinho ali… e assim nos vemos presos à práticas diárias e incessantes, pois se ficarmos um dia sequer sem alongar, perderemos numa rapidez exponencial o ganho anterior.

No fim das contas, o conselho segue firme e inalterável: Não force! Mas, procure sempre se lembrar que isso implica em saber ouvir o corpo e equilibrar as ambições. Não faça nada que gere dor, avance apenas o suficiente para sentir que a questão está sendo trabalhada. Assim, as chances de se obter um resultado ótimo e, principalmente, duradouro, são maiores.


Respire e nutra seu corpo

Não só de movimento vive um corpo saudável, é preciso mantê-lo nutrido! E, apesar deste conselho também ser bastante “sabido” por todos, é muito comum termos problemas nessa área. Parte disso tem relação com o que falamos mais acima: seu corpo é altamente complexo, e sua nutrição não seria diferente. Mas, independentemente de como seu corpo funciona, da quantidade e qualidade nutricional que você vive e necessita, o fato é que alguns problemas que vivemos nas atividades físicas terá sua origem na alimentação – incluindo aqui a respiração no mesmo pacote, visto que uma boa oxigenação pode ser vista como “nutrição”.

Câimbras são os exemplos mais clássicos, pois elas surgem justamente pela falta de oxigenação e nutrição específica em casos de movimentação intensa, localizada e repetitiva. Porém, podemos abranger isso para toda e qualquer abordagem física com o corpo. De nada adianta tentar alongar e trabalhar músculos, por exemplo, se não prestarmos atenção na respiração e na comida que consumimos. Imagina aquela câimbra no diafragma no meio da performance?

Em suma, o recado aqui é: estude seu corpo, para descobrir qual a melhor forma de nutri-lo. Quais são os nutrientes que ele mais precisa e qual a quantidade de energia que ele pede. Observe como ele reage com a sua alimentação. Verifique quais problemas ou desconfortos que você sinta que possam ter origem na alimentação (seja por algum excesso ou falta de algo específico). Além disso, busque dicas de meditação e exercícios de pránáyáma, pois irão te auxiliar muito no quesito respiratório, tanto para que você perceba como respira quanto para ver onde há algum problema (como uma má oxigenação por causa de estresse).


Crie uma boa base

Este tópico é bastante amplo, com vários pontos importantes. A primeira coisa que pensamos com relação à isso é o domínio do básico, ou seja, desenvolver plenamente suas capacidades com os níveis mais fáceis antes de se atirar nas estripulias. Saber bem o básico não é apenas uma questão de conhecimento, mas principalmente de preparo físico. Não adianta almejar fazer um passo impactante se o corpo não se cimentou nos passos simples. Cada área que utiliza o corpo – seja dança, yoga, musculação – possui peculiaridades e níveis, que se não forem respeitados podem gerar lesões graves (além de gerar performances ruins). É sempre aconselhável iniciar devagar, aprender muito bem e treinar passos e exercícios básicos, para ir desenvolvendo o corpo de maneira concisa e duradoura. A partir dessa base bem estabelecida, o céu é o limite! E, sempre bom lembrar, “mais” não significa sempre “bom”. Não adianta fazer uma performance cheia de passos complexos se eles mal foram vistos. “Menos é mais”, como muitos dizem!

Outro ponto importante e muitas vezes deixado de lado é a nossa base literal: nossos pés, peso e eixo. Trabalhar conscientemente com esses pontos – estudando a posição de nossos pés, a distribuição do nosso peso neles, como executamos a transferência de eixos num deslocamento, prestando atenção aos planos corporais e à postura – nos faz ter uma maior consciência corporal, uma melhor percepção dos movimentos e imagem agradável, além de uma segurança e confiança maiores. Por fim, uma base sólida permite uma melhor execução – e mais segura – dos traços específicos de cada área. A dinâmica e exigência corporal entre dança do ventre e ballet clássico são muito distintas, assim como yoga e musculação. Pode acontecer do seu corpo ter uma ótima estrutura para ventre, mas executar certos passos de ballet será extremamente desafiador. Portanto, mesmo com uma base firme, não deixe de estudar como os avanços da sua atividade devem ser feitos, e se você está pronta para tal.


Descubra sua rotina corporal

Assim como mencionamos anteriormente que cada corpo é um corpo, possui suas peculiaridades, genética e espiritualidade, a rotina de trabalho físico não ficaria de fora. Aqui também é muito importante que busquemos um entendimento pessoal sobre como nosso corpo reage a determinadas rotinas. Seu corpo precisa de movimento diário? Ele precisa ser exercitado todo dia, numa mesma rotina idêntica? Ou é o caso de um corpo que pede descansos eventuais, prefere um desenvolvimento alternado? Ele se dá bem com a repetição, ou prefere atividades variadas? São pontos-chave para um bom desenvolvimento, pois para algumas pessoas, aquela “folga” dos exercícios pode ser extremamente beneficial para o corpo, que irá integrar o trabalho feito anteriormente – se bem feito. Já para outras, o caso pode ser de estimular constantemente a movimentação.

Nossa cultura ainda nos impõe regras rígidas sobre rotina – o “ideal” é sempre levantar muito cedo, ser produtivo durante o dia, descansar à noite; o “correto” é fazer exercícios todo santo dia; etc. – mas hoje sabemos que a coisa é mais complicada. Cada pessoa tem uma rotina diferente, com exigências distintas e necessidades pessoais. E majoritariamente não temos a chance de criar nossas próprias rotinas – vide a necessidade de trabalhar todo dia, mesmos horários. Muitas vezes os problemas e cargas de trabalho da vida cotidiana nos drenam energia e ânimo, ainda mais quando estes te obrigam a uma rotina que não funciona pra você. Portanto, este é um dos tópicos mais desafiadores, pois quase com certeza absoluta ninguém conseguirá construir a rotina perfeita. Atualmente nossa cultura atrapalha nos sugando energia, ou então nos vampiriza com listas e listas de afazeres, obrigações e situações que precisamos resolver, no tirando tempo e foco para nos concentrarmos no corpo.

Em suma, conselho é: descubra como o seu corpo funciona melhor, com que tipo de rotina e ritmo. Depois, estude formas de adaptar a sua vida cotidiana à dinâmica corporal – ou vice versa. Por enquanto, esta é a única forma de conseguirmos sobreviver neste mundo atual e darmos a devida atenção ao nosso próprio desenvolvimento. Esperemos que tempos melhores vinguem.

Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.

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