O Papel do Público

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People Sitting in Theater
Movie Theater Audience. Fonte: Huffpost
Final de ano no mundo da dança é sempre complicado: espetáculos, mostras, haflas, convites das amigas dançarinas… e muitas vezes no mesmo dia! Infelizmente, seja por questões financeiras ou um calendário cheio, nem sempre conseguimos assistir a tudo.
Mas, enfim, você consegue ir! E lá você topa com um público quase sempre misto: colegas de dança, admiradores da cultura, familiares, amigos, entendidos e leigos. Porém, a diversidade das pessoas que vão prestigiar um evento infelizmente não é apenas no nível de conhecimento do assunto: é também comportamental.
Você percebe que há pessoas quietas, alegres, animadas, entediadas, as que ficam mexendo no celular, as que conversam com o amigo do lado, que soltam pontuais zaghareets e aquelas que ficam aos berros. Desnecessário dizer, alguns desses comportamentos são um tanto quanto desagradáveis – tanto para o colega espectador quanto para o performer.
Qual a melhor forma de agir em um evento de dança? O que se espera do espectador? O que é considerado exagero, desrespeito, ou apenas uma demonstração de alegria? Até que ponto nossas ações são prazerosas ou incômodas?
Não há respostas definitivas para estas perguntas, assim como não há regras sobre como se deve ou não comportar nessas ocasiões. Cada pessoa possui uma percepção diferente da outra e, consequentemente, reações também diferentes. Obviamente, bom senso nunca é demais. Ninguém vai rir ou bater palma animadamente numa cena dramática e triste, por exemplo. Ou não deveria.

O objetivo aqui não é instruí-lo sobre a melhor ou mais correta forma de se portar em um espetáculo, mas sim discutir sobre a reação do público conforme a conexão e comunicação deste com o performer, afinal, uma bailarina, por exemplo, não está ali “apenas” para dançar: consciente ou inconscientemente, uma performer visa impactar o público, seja com alegria, arrebatamento, algo sublime, exótico ou até mesmo triste. É a partir desse impacto que surge a reação, e nosso comportamento perante isso demonstra se a conexão foi estabelecida ou não.

Vamos ver alguns exemplos?

O Silêncio

Um público silencioso pode significar um desastre ou a melhor coisa possível. Se a sua proposta é levar alegria, animação e festa, a quietude é como um balde de água fria. Agora, se você for dançar um taqsim ou tiver uma performance mais introspectiva e dramática, um público saltitante e tagarela não é o melhor resultado.
Mas o silêncio não é apenas uma das “reações” possíveis. É também um sinal de respeito. É sinal de que você está prestando atenção ao espetáculo, que está admirando, voltando todos os seus sentidos para a conexão emocional proposta – para então reagir conforme o que sentir. Uma pessoa que não se aquieta, ao menos no início da performance, demonstra indiferença àquela arte, impedindo ou dificultando a comunicação entre o público e o performer.
Em suma, o conselho é: silencie-se em cada começo de performance. Foque sua atenção, doe-se! E a partir do que o espetáculo lhe fizer sentir, enjoy!

 A Alegria

 
Uma das reações mais comuns no mundo da dança, a alegria é sempre deliciosa. Seja criada por uma dança animada e empolgante, por algo divertido e humorado, ou mesmo por ver aquela amiga querida com um sorrisão de orelha a orelha.
Em geral oposto ao silêncio mencionado acima, aqui é super válido bater palmas, gritar alguns zaghareets e mesmo os típicos “LINDAAA” para a colega no palco.
Claro, esse gestual todo não é regra. Nada te impede de sentir a alegria e admirar um show de maneira discreta e silenciosa, apenas estampando um gostoso sorriso de satisfação no rosto. Cabe dizer aqui que o silêncio não precisa ser sério.
Porém, é a partir dessa reação que algumas pessoas se encaixam na categoria a seguir:

 O Exagero

 
Aqui, esse comportamento surge em dois contextos: o “correto, porém too much” e o “falta de bom senso”.
O primeiro é simplesmente aquela pessoa que, perante a reação “correta” gerada pela performance (por exemplo, a alegria), exagera tanto no seu comportamento que acaba por incomodar os colegas espectadores e pode até atrapalhar o performer. Ela não solta apenas um ou dois, mas muitos e frequentes zaghareets; ela expressa qualquer coisa aos BERROS; ela gesticula expansivamente várias vezes, atrapalhando a visão dos outros; ela grita o tempo todo os típicos “LINDAAA” para a amiga dançarina.
O segundo representa aquelas pessoas que reagem – exageradamente – fora do contexto. Por exemplo, não é um “problema”, necessariamente, você reagir indiferente, ficar no celular ou falar com alguém durante uma performance que pede silêncio. É um problema um público silencioso e você lá no meio, aos BERROS, gesticulando loucamente para a colega dançarina.
Ou seja, ambas as reações exageradas, não só são um incômodo para os demais espectadores, mas também uma demonstração de “surdez artística”. Demonstra que você não prestou atenção à arte, à proposta. Não se conectou, se comunicou ou se emocionou com a performance.
Em suma, não seja essa pessoa.
Fica a dica.

O Desrespeito

 
Por fim, vamos comentar sobre respeito. Isso não se reflete apenas na forma como você se conecta – ou não – à arte do evento, mas também como você age com questões mais “irrelevantes”. Entre aspas. Muitas aspas.
Tudo o que discutimos acima, no final das contas, se relaciona ao respeito que você demonstra às bailarinas e aos colegas espectadores. Mas existem outras situações que envolvem essa questão.
Por exemplo, hoje em dia muitos espetáculos se veem obrigados a emitir um anúncio de proibição do uso de celulares e câmeras para que estes não prejudiquem o trabalho dos fotógrafos e filmadores profissionais. E adivinhem? Sempre tem aquela pessoa que ignora o aviso e abre o celular, seja para filmar ou fotografar.
Isso sem falar nas questões de assédio em eventos como haflas ou restaurantes com shows de dança (casos mais comuns, acredito, na dança do ventre).
Again, não seja essa pessoa.
Em suma, é isso. Procurem se observar, ver como vocês se comportam em um espetáculo. Como o público ao seu redor reage. Como você se sente ao assistir as performances.

 

Procure ser um bom público!




Anath Nagendra deixou de lado uma graduação em Biologia e um mestrado em Paleontologia pra tentar a vida profissional na Dança e nas Artes.
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Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.

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