Porta para o Mundo dos Mortos

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Com o final de outubro, lembramos da tradicional festa de Halloween, com suas fantasias, brincadeiras e comidas bizarras e todo aquele clima de filme de terror. Este não é apenas um período para os festejos horripilantes ou para o pesar pelos mortos – é também uma época interessante para práticas mágicas, para o recolhimento interior, para o lidar com tristezas pessoais, para o conectar-se com o mundo inferior. E, por que não, para dançar?
 
A dança nos permite vivenciar e experimentar uma miríade imensa de estilos e propósitos. Dentre eles, estão os mais teatralizados, místicos e ritualizados. No caso de datas como Halloween, podemos expressar e entrar em contato com esses tipos de conexões relativas ao nosso lado ctônico e sentimentos densos. Podemos trazer à tona através da arte nossos monstros inconscientes e ritualizar desejos.

Vamos aproveitar este momento para falar um pouquinho do simbolismo e história por trás dessa data – assim como de outras comemorações semelhantes de outras regiões?

Joseph Tomanek, “Nymphs dancing to Pan’s flute”
A cultura de um povo é sempre algo miscigenado e híbrido: representa os costumes e pensamento de um povo, agrega tradições de outros povos com os quais teve contato, evolui com o tempo, e é também um reflexo do inconsciente coletivo. Assim, quando vemos uma determinada prática ou mito em mais de uma cultura, essa semelhança reflete ou a adoção da característica de um povo pelo outro, ou a um arquétipo que emergiu espontaneamente em ambos, mesmo que nunca tenham tido contato.
Mas, independentemente do caso, confira abaixo quatro exemplos culturais distintos que abrangem os dias 31 de outubro e 1 e 2 de novembro: Halloween,Samhain, Dia de los Muertos e Finados!

 

Halloween

“Halloween Makeup”, original de vídeo de easyNeon. Youtube.
Na realidade, o Halloween é o primeiro de uma tríade de dias especiais na cultura ocidental cristã, chamada, em inglês, de Allhallowtide, cujo objetivo é orar pela alma dos mortos, inclusive a de santos e mártires. Os três dias são:
  • “All Saints’ Eve” (Noite de todos os Santos) – o Halloween propriamente dito, que inicia na noite de 31 de outubro;
  • “All Saints’ Day” (Dia de todos os santos), em 1º de novembro;
  • “All Souls’ Day” (Dia de todas as almas), em 2 de novembro.

E, apesar de ser maciçamente festejado nos EUA, sua origem é inglesa.

Dependendo da relação – religiosa ou não – que você tiver com essa cultura, o modo de “comemoração” perante os mortos pode ser tanto mais tranquilo – voltado para rezas, respeito e luto – quanto festivo, com brincadeiras e outras tradições típicas, como no caso do Dia de los Muertos mexicano. Desnecessário dizer, a estética é fortemente calcada em monstros e figuras apavorantes, que podem provir de mitos antigos, da literatura ou cultura pop.

Performance com a temática de vampiros
 
Como você já deve ter ouvido falar, há um certo consenso de que o Halloween é originário da cultura celta – especificamente a gaélica – apesar de alguns acadêmicos erguerem a possibilidade de ambas tradições terem surgido independentemente uma da outra.

 

Samhain

“Tree me”, por Ania Szymanska, Imgrum.

O evento gaélico Samhain ocorre da noite de 31 de outubro até a noite de 1º de novembro, e é o festival que marca o início do inverno (considerando, claro, o hemisfério norte), apesar da data estar entre o equinócio de outono (em setembro) e solstício de inverno (em dezembro). A mesma comemoração ocorre com outros nomes em diferentes terras e povos celtas.

Sendo o início da época de vacas magras, os rituais envolviam oferendas e práticas de purificação para se evitar qualquer mal, e também para agradecer as colheitas anteriores. O povo celta acreditava que esse período abria uma “brecha” entre o mundo dos vivos e o mundo das divindades, criaturas fantásticas e dos mortos (como, por exemplo, os Aos sí), sendo uma época propícia para que tais entidades caminhassem entre as pessoas.

E é desta crença que surgem várias das práticas mais conhecidas do típico Halloween – como as brincadeiras de travessuras, as fantasias e até as abóboras. Todas elas possuem uma relação ou propósito para se lidar com os possíveis “encontros”. Por exemplo, as fantasias implicam na pessoa incorporar a entidade representada a fim de não ser prejudicada por ela, ou de se disfarçar e não ser notada; os doces bizarros e exóticos são oferendas para abrandar os espíritos; a abóbora esculpida com uma face é de um personagem mítico específico (Jack’o’lantern), cuja função é de afugentar os espíritos maléficos, por ser uma alma errante, não aceita nem no céu e nem no inferno.
 

 

Dia de los Muertos e o Dia de Finados

Erika Henrikson
O Dia de Los Muertos, que ocorre em 2 de novembro, é, como o próprio nome diz, um dia dedicado a todos os entes falecidos. Na mesma data e com o mesmo intuito, temos aqui em nossas terras tupiniquins o Dia de Finados.

Apesar da data, existem algumas diferenças entre eles: o Dia de los Muertos, comemorado no México, é razoavelmente antigo, e possivelmente com raízes no povo Azteca, e o brasileiro Dia de Finados é relativo à cultura cristã. Curiosamente, o festival mexicano ocorria em outra época – no início do verão – mas foi gradualmente modificado justamente pra coincidir com o Halloween (já que se tornou mainstream graças à cultura ocidental e o cristianismo).

Além disso, vemos claramente uma diferença na atitude: onde nós, brasileiros, costumamos tirar o dia para sentimentos de luto e pesar pelos entes queridos perdidos, os mexicanos trazem uma energia muito mais festiva, com muita dança, festa, comida e apetrechos temáticos. Caveiras, esqueletos, artigos de bruxaria para todo lado, e as clássicas catrinas!

“Mas, mas… aqui não é o começo do inverno! Comofas////”

A cultura globalizada do hemisfério sul é fortemente ditada pelo hemisfério norte, assim, muitas vezes acabamos deixando de lado nossas próprias tradições e mitos em prol da dos gringos. Não que isso seja de todo ruim, o problema é que seguir as datas e rituais do pessoal lá de cima implica numa inversão cultural. E algumas coisas podem não ter efeito ou não combinar energeticamente, pois estão com os sinais trocados. Por exemplo: as comemorações citadas acima são voltadas ao contato com os mortos, com o mundo inferior e preparação para a época do inverno… que, no nosso caso, acabou de passar.

Quando o assunto é ritual, o contexto é uma das peças mais importantes, pois de nada adianta desejar energia suficiente para a sobrevivência durante o inverno se o ritual foi feito no final da estação, por exemplo, assim, o correto seria adaptar as datas.

 

Beltane [BÔNUS]

Fonte: verbete “Beltane”, Wikipaedia.org
Este festival ocorre em 1º de maio lá em cima, e o objetivo é obter proteção para o gado e abundância nas plantações – assim como fazer oferendas aos Aos sí, mesmo grupo de criaturas mencionadas neste texto.

Um dos pontos fortes são as fogueiras, feitas para acender o fogo sagrado – que auxilia na proteção, limpeza e renovação.

Além disso, Beltane conecta-se com outro festejo – desta vez germânico, do dia 30 de abril: Walpurgis Night! Com o simbolismo semelhante ao festival celta, ele ilustra a união entre o Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino, o que também relaciona-se com a época de fertilidade e abundância que geralmente é a primavera/verão.
O videoclipe “Walpurgisnact”, da banda FAUN, representa esta união.
 
Aproveitem bem essa época – seja qual for a sua opção cultural! Se quiserem mais detalhes sobre o surgimento e significado, deem uma espiada nos links a seguir:



Anath Nagendra deixou de lado uma graduação em Biologia e um mestrado em Paleontologia pra tentar a vida profissional na Dança e nas Artes.

Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.
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