Profissionalismo vem de dentro, e a arte também

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O quanto um diploma ou certificado diz sobre o seu professor de dança? Quando o assunto é arte, o quanto um diploma ou certificado faz diferença? Ainda, no mundo da dança tribal, estilo tão diversificado, flexível e livre, o quanto um título fala sobre o conhecimento e visão do professor?

Hoje é dia de discutir um assunto complexo, que possui várias facetas e certamente divide opiniões: o que faz de um profissional, um profissional? Quero questionar o quanto um título é importante – no que concerne à arte – e também que isso não confere profissionalismo instantaneamente! Veremos alguns pontos-chave do bom profissionalismo, e quais deles exigem uma titulação.


Gostaria de deixar claro desde já que não estou questionando a importância de uma boa formação. Conhecimento, estudo contínuo, especializações e prática são a base para um bom trabalho e um bom profissional, e deveriam ser acessíveis a todos. Mas é comum nos deixarmos levar pelo brilho de uma titulação, que por vezes não quer dizer muita coisa no que concerne à qualidade do trabalho. Além disso, podemos topar com profissionais maravilhosos e responsáveis… que não possuem sequer uma graduação.

Mas, obviamente, a maioria das áreas da vida que não necessariamente estão ligadas à arte devem ser bem embasadas em seus conhecimentos e práticas. Afinal, ninguém que queira se tornar um médico, biólogo, matemático, físico, ou historiador conseguirá fazê-lo sem uma formação superior – e nem deve! Ao mesmo tempo, essa discussão pode ser encaminhada mesmo nesta áreas, pois infelizmente há muitos e muitos “profissionais” com ensino superior completo que conseguem ser péssimos em seu trabalho – fora a boa e velha discussão sobre os atuais métodos de ensino. Só que esse tópico fica pra outra roda de conversa.


Arte é uma das áreas mais subjetivas da existência humana, caminhando de mãos dadas com a psique individual. Seja ela dança, música, desenho, pintura ou escultura, a arte possui como cerne criativo o indivíduo. Independentemente do conhecimento do criador, um artista pode surgir literalmente de qualquer lugar, de qualquer contexto.

Então para que serviria uma formação para um artista? Para muitas coisas! Desde trazer conhecimento sobre a história da arte em questão e seus diferentes estilos ao longo dos séculos, quanto ajudar no embasamento técnico, diversificação de expressões e entendimento da saúde.

O problema é que muitos artistas não têm condições ou acesso a um ensino superior em sua área, e dependendo do caso, mesmo um curso oferecido pode não ser bem embasado, ou deixar de lado justamente o foco pretendido pelo indivíduo. Se fôssemos exigir que todo e qualquer artista tivesse uma formação reconhecida para trabalhar, perderíamos uma imensa gama de profissionais! Ainda não temos, como país, condições de fazer essa exigência – ao menos no que concerne à expressão artística.

Mas todos sabemos bem que existem pessoas mundo afora que não têm formação artística, não têm conhecimento refinado da prática, não possuem ciência de aspectos da saúde, não têm uma boa didática, não têm bom caráter ou profissionalismo… o que leva muitas alunas a se exporem a perigos – sejam físicos, emocionais ou sociais.

Qual a solução para esse problema?

Infelizmente não tenho uma resposta simples, e acredito que ainda teremos muito chão para chegar a um ponto de padronização de qualidade. Ainda mais devido ao contexto da arte, que é tão subjetivo.

Sendo assim, hoje trago alguns tópicos do que considero que um bom profissional deve ter, com relação ao meio da dança. E todos eles independem de um título, pois atualmente há muitas oportunidades de alguém aprofundar e buscar conhecimentos para se desenvolver sem necessitar de uma faculdade ou curso técnico por perto.

No final das contas, um bom profissional surgirá conforme a pessoa se desenvolve, aprende, expõe sua arte, lida com colegas e ensina seu pupilos. Não é um título que vai dizer se aquele professor é bom ou não. Não será uma graduação que mostrará o nível de conhecimento dele. E, obviamente, não será um papel que irá refletir o caráter da pessoa.

Então, o que um profissional de dança deve saber?


Noções de anatomia e fisiologia

Quesito básico. Afinal, nossas práticas, se não forem bem orientadas, podem nos expor a distensões musculares ou de tendões, lesões na coluna e problemas posturais, dores articulares e até mesmo problemas fisiológicos relacionados à pressão arterial, por exemplo. Por mais que muitos desses riscos sejam pequenos e não muito comuns, ninguém está livre!

O profissional deve estudar o mínimo dessa área, tanto para proteger o próprio corpo quanto o de suas alunas.

Dica: avalie qual a importância que sua professora (ou você) dá para práticas como aquecimento, alongamento e relaxamento nas aulas.

Boa didática

De nada adianta ter muito conhecimento ou boa vontade se não se sabe ensinar. A importância desse tópico está intimamente relacionada ao anterior, visto que uma técnica mal explicada pode levar a injúrias. Além disso, uma boa didática implica em saber ensinar de várias formas, pois nem toda aluna compreende um assunto da mesma forma. Se você explica tudo da mesma e única forma, as alunas que tiverem dificuldades podem indicar um problema com o seu método, e não necessariamente com a capacidade delas.

Dica: verifique como sua professora (ou você) ensina, se a explicação é detalhada ou superficial, se ela usa muito de práticas como “eu faço e você imita”, se o conteúdo ensinado lhe permite explorar e experimentar por si mesma ou não. 

Respeito e compreensão

Parece óbvio, mas nem sempre isso é aplicado. Um bom profissional deve respeitar todas as formas de arte, mesmo que alguns colegas artistas a expressem de uma maneira que você ache terrível ou errada. Na arte não existe errado! E isso se aplica tanto aos colegas de trabalho quanto às alunas, pois cada bailarina tem um estilo de expressão, e gosto por diferentes vertentes. Além disso, o bom profissional compreende que cada aluna tem um jeito e velocidade de aprender, e deve ser estimulada a se desenvolver no próprio ritmo.

Dica: observe como sua professora (ou você) trata seus alunos, de que forma ela as estimula, se as critica (e como), como ela se expressa no meio, etc.

Estimular e compartilhar o aprendizado

Necessário dizer, pois sabemos que há muitas professoras que guardam seus conhecimentos no intuito de segurar alunas. Fora quando ficam depreciando outras colegas, tentando evitar a perda de seguidoras. Por melhor bailarina que você seja, tentar segurar alunas – seja com relação a outras profissionais, seja com relação ao próprio estrelismo – é péssimo e só revela a própria insegurança. Seja confiante no próprio trabalho, estimule suas alunas a expandirem horizontes e a brilhar sua própria essência!

Dica: observe se sua professora (ou você) faz mistério prolongado sobre algum conhecimento, se ela fica dando desculpas sobre indicar outras aulas ou colegas de trabalho, e como ela faz você se sentir com a própria dança.

Continuar estudando

Provavelmente uma das mais óbvias, mas a verdade é que muitos profissionais se acomodam depois de um determinado nível de experiência. Claro que às vezes a vida impede que você saia fazendo cursos e mais cursos pra se manter atualizada, mas a intenção e dedicação de ler matérias sobre o meio, estudar vídeos de outras performances ou desenvolver aulas e cursos farão com que você se mantenha ativa.

Isso vale pra qualquer área da vida, mas quando o assunto é arte, é necessário ter uma ênfase a mais, visto que ela não apenas é subjetiva, como mutante e maleável. Manter-se atualizada é praticamente uma questão de necessidade!

Dica: observe como sua professora (ou você) aplica seus conhecimentos. É sempre a mesma coisa? Ela traz novidades? Ela está a par de notícias relevantes?

Enraizar, desconstruir e experimentar

Existem alguns assuntos polêmicos dentro da arte – quesito que fica pra outro artigo –, sendo um deles a relação entre tradição e experimentação. No que concerne a um bom profissional, este deve ter uma noção do que é considerado tradicional e conservador em seu meio, e como desconstruir para inovar e experimentar. Um professor que fica congelado num mesmo estilo, ensinando-o militarmente, acaba fazendo um desserviço à arte e estagna o desenvolvimento de si mesmo e das alunas. Independente do estilo, aprender suas raízes e essência ao mesmo tempo que experimenta e desconstrói é uma ótima característica.

Dica: observe como seu professor (ou você) ensina as técnicas de um assunto, o quanto ele permite uma flexibilidade, experimentação ou questionamento de tradições.

E na dança tribal?

Aqui o bom profissional deve estar ainda mais atento aos tópicos acima. Dança tribal é um estilo tão flexível, tão metamorfo, tão exótico e tão diverso que é praticamente impossível que todos concordem com tudo. Há controvérsias sobre seu histórico, há polêmicas quanto ao que o define… e tantas coisas mais que não é difícil que colegas profissionais do meio acabem criando inimizades ou visões estreitas.

A dança tribal costuma até ser difícil de compreender. Sua essência muitas vezes só é compreendida com o tempo e experiência – o que não impede que professores de tribal estejam por aí, atuando, e não saibam plenamente o que é este estilo.

Aqui é muito importante que o profissional compreenda isso, saiba dizer quando não sabe uma resposta, e saiba respeitar as diversas formas de se entender, aplicar e ensinar esta dança.

E você, aluna, também entra aqui no que concerne ao respeito ao estilo do professor, sua visão e seu conhecimento. Desconfie apenas se seu professor começar a expressar opiniões violentas, críticas negativas ou conservadorismo sobre o que é ou não o tribal.

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