Projeto Vídeo & Dança

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A dança tribal é uma dança étnica contemporânea conhecida popularmente como uma vertente moderna da dança do ventre. A videodança, por sua vez, é uma arte audiovisual que vai além do registro de uma performance ou de um clipe de dança, englobando diferentes linguagens num mesmo produto – principalmente a trilha sonora, a dança concebida para o vídeo e a filmagem em si, podendo conter sobreposição de textos, fotografias, imagens e narração. A beleza da produção fica por conta da edição, do uso de efeitos especiais e mixagem da trilha.

Com o objetivo de conciliar os estudos em Comunicação Social com o trabalho ligado à dança tribal, a aluna-pesquisadora Melissa Souza deu início ao Projeto Vídeo & Dança, concebido como um projeto acadêmico experimental independente, desenvolvido em parceria com profissionais de diferentes áreas artísticas, midiáticas e acadêmicas. Além da finalidade acadêmica, o projeto tem como proposta propagar o interesse e a compreensão da dança tribal por meio da exibição dos vídeos e compartilhamento em diferentes mídias sociais, divulgando assim a linguagem da dança e o ofício dos participantes envolvidos, sendo eles dançarinos, coreógrafos, professores, músicos, fotógrafos e/ou orientadores.

Para obtenção de embasamento teórico, histórico e técnico, o projeto foi desenvolvido de acordo com as técnicas apreendidas no curso de graduação em Comunicação Social pela Faccamp (Faculdade Campo Limpo Paulista), tendo como base disciplinas como Estética e História da Arte, Edição, Estudos Literários e Web TV, além da realização de uma série de pesquisas, incluindo a leitura de artigos; consulta a sites, visualização de vídeos produzidos por pesquisadoras da área, bem como notas sobre outras fontes consultadas, como veremos a seguir.

Arte Audiovisual Contemporânea: A Beleza da Videodança

Foto: Aline Santana

A expressão conhecida como videodança passou a ser reconhecida a partir de obras da década de 40, quando formulava-se o termo “filme-dança”, mas se firmou como linguagem somente no início dos anos 70. Spanghero (2003) utiliza a terminologia para englobar três tipos de prática:

  1. O registro em estúdio ou palco, ou seja: a gravação da coreografia com uma ou mais câmeras sem que esta sofra alterações significativas.
  2. A adaptação ou transdução de uma coreografia preexistente para o audiovisual, que se resume na captura da câmera e o ambiente do computador.
  3. As danças pensadas diretamente para a tela, cuja terminologia correspondente em inglês é screen choreography: são as danças concebidas especialmente para a projeção na tela.

Esta classificação pode ser expandida em inúmeros tipos de práticas diferentes envolvendo o movimento do corpo e o audiovisual, pertencentes ao panorama da videoarte. Todavia, para o trabalho em questão, a que mais se aplica é a descrita no terceiro item:

O que interessa primordialmente é que a câmera dance com o bailarino e que o bailarino se coloque no espaço e no tempo da câmera. No olhar da câmera. Quando a dança é captada pelo olho da imagem, ela ganha uma outra existência. Na realidade, este jogo adaptativo permite o florescimento de novas práticas para a dança e a modificação do corpo.

Gonçalves também sintetiza uma definição para videodança:  “Em síntese, videodança trate-se de uma produção coreográfica especialmente concebida para a tela e que só existe plenamente dentro da tela. De uma obra de dança criada como vídeo ou de um vídeo criado como dança.” Basicamente, a videodança é um gênero audiovisual de linguagem híbrida, como diz Kilma Farias em seu artigo “Tribal Fusion e Videodança: O Duplo Hidridismo na Tela” (2015):

Tudo se torna possível; dançar de cabeça para baixo, multiplicar o performer em cena, acelerar e desacelerar seus movimentos, inverter o sentido da ação, alterar cores, sobrepor imagens, entre múltiplas possibilidades. Desse modo, a dança do performer modifica e é modificada pelas técnicas de filmagem e edição. Os movimentos que antes não eram permitidos pelas limitações do corpo, dentro de outro tempo/espaço tornam-se realidades possíveis graças à hibridação corpo/tecnologia digital.

Assim como a dança tribal, a videodança surge como uma forma de linguagem abrangente em estética, movimento corporal e pensamento crítico, agregando técnicas diversas de outros estilos de arte, como por exemplo a animação e a fotografia, propondo assim uma poética entre artistas da dança, do cinema e da música. De maneira alguma ela pode ser confundida com um clipe de dança: “A resposta que distingue um vídeo-dança de um filme de dança ou de uma dança filmada pode estar resumida na decupagem, na câmera e no espaço de representação.” (VERAS, Alexandre apud MATTAR, Bia, 2014).

Pioneira na produção de videodança de Tribal Fusion no Brasil, Mariáh Voltaire define a expressão “como uma linguagem de mediação tecnológica e não como um processo de colagem; tampouco como mera exploração de efeitos técnicos.” (VOLTAIRE, 2010 apud FARIAS). Guilherme Schulze, produtor e pesquisador na área, propõe a compreensão da videodança “como síntese de múltiplas dimensões narrativas de análise constituídas essencialmente pelas dimensões primária, secundária e terciária.” (SCHULZE apud FARIAS, 2010), que Kilma Farias descreve, respectivamente, como o contexto e corpo, os planos do “olhar” da câmera e a “coreoedição”.

Seguindo esta mesma linha de pensamento, a australiana Karen Pearlman faz uma observação curiosa sobre o procedimento de editar e coreografar: “A aproximação da arte de editar e coreografar reconhece procedimentos similares para a construção das sequências e seleção de imagens/movimento.” (Karen Pearlman apud Bia Mattar, 2014).

Referências

DEPIERI, Raphael. O Impacto da Internet e Novas Tecnologias na Produção de Conteúdo. Palestra realizada para os alunos do curso de graduação em Comunicação Social da FACCAMP (Faculdade Campo Limpo Paulista), 2015, Campo Limpo Paulista.

FARIAS, Kilma. Luz, Câmera, Tribal Fusion em Ação!: Uma pequena observação da utilização do videodança na linguagem do Tribal Fusion no Brasil. 2013. Disponível em: <//www.facebook.com/notes/660586143953452>. Acesso em 24 de novembro de 2015.

______. Tribal Fusion e Videodança: o duplo hibridismo na tela. 2014. Artigo (Licenciatura em Dança) – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Corpo Cênico (NEPCênico), Universidade Federal da Paraíba, Paraíba, 2014. Disponível em: <//www.facebook.com/notes/kilma-farias/artigo-resultante-da-pesquisa-sobre-tribal-fusion-e-videodan%C3%A7a-desenvolvida-no-n/796112953734103>. Acesso em 24 de novembro de 2015.

GONÇALVES, Arlete. Dança em Foco: Entre imagem e movimento. [S.n.t.]

MATTAR, Bia. A Arte da Videodança. Diário Catarinense, Santa Catarina, 16, ago. 2014.

SPANGHERO, Maíra. A dança dos encéfalos acesos. São Paulo: Itaú Cultural, 2003. Disponível em: <//d3nv1jy4u7zmsc.cloudfront.net/wp-content/uploads/2012/02/000292.pdf>. Acesso em 24 de novembro de 2015.


Com base nas informações obtidas, Melissa Souza deu início ao Projeto Vídeo & Dança em 2015, sendo concebido uma produção anual até então. Confira a seguir os vídeos resultantes do projeto, bem como o processo criativo através do release e a ficha técnica com os participantes envolvidos.


Corpo, Casa, Cosmo (2015)

Foto: Aline Santana

“Em vez de lutar contra ela ou de consumi-la, o ser humano consciente acolhe a natureza, dentro e fora dele.” Lucy Penha

A analogia entre o corpo, a casa e o cosmo é um conceito universal, estando presente entre grandes culturas da humanidade, como o Oriente Médio, a Índia, a China e a América Central. O corpo, tal como a casa enquanto habitação, simboliza o meio ambiente físico e social, nosso modo de ser-no-mundo, aqui denominado “consciência”. Nossas ações cotidianas são consequências desse intelecto pensante: ao sermos vistos em plano aberto, percebemos que os nossos movimentos traduz os pensamentos intimistas.

O corpo reflete o cosmo: nosso ponto de equilíbrio, a coluna vertebral, equivalendo ao pilar que sustém o mundo; nosso centro de energia, o umbigo, correspondendo à raiz das forças invisíveis do universo. Mas nossa mente não é composta por matéria, sua capacidade não é alcançar ou dominar, mas sentir, perceber e analisar. Essa busca por uma visão aberta integra aspectos de atos básicos como comer, vestir e amar, que já não é tão acessível numa sociedade desmistificada. Não refletimos as nossas ações, não permitimos que a psique humana desempenhe suas funções – sensação, sentimento, pensamento e intuição.

Uma personalidade aberta para o simbólico não é supersticiosa, realizando a união entre os mundos visível e invisível, o chamado ser “sensível”. Escolhemos acolher a natureza quando deixamos de resistir aos nossos impulsos e nos permitimos sentir. Corpo e psique se integram através do espírito lúdico e criativo e a expressividade natural do corpo remove os véus dos chakras. No cenário, o contraste: a degradação do ambiente externo contra nosso estado interno. No figurino, uma autopercepção: nossa escolha pessoal de cores, formatos e texturas imprime uma personalidade singular. No grupo, a apreensão do conceito de Tribo faz transcender a ação do inconsciente coletivo. E, por fim, o cosmo é compreendido. Dançando, vivenciamos esse processo e recriamos nosso mundo pessoal.

Ficha Técnica

Videomaker: Melissa Art
Fotografia: Aline Santana
Performance: Nanda Nayad, Nanda Rodrigues, ViVi Andrade e Nina Amirah
Locação: Museu Ferroviário, Jundiaí/SP

Transmutação (2016)

Foto: Lairton Carvalho

O termo “transmutação” refere-se à formação de um novo gênero através do acúmulo progressivo de mutações no elemento original, e o que é a Dança Tribal se não o conceito de uma dança étnica e contemporânea, construída a partir de diferentes linguagens culturais? Através da compilação de curtas sequências coreográficas, este projeto de vídeo e dança tem como proposta contar a história da transmutação da Dança Tribal, incorporando em sua narrativa diferentes características e ramificações das danças que a compõe.

No princípio, o American Tribal Style®, formado por Nanda Rodrigues, Juliana Santos e Dayeah Khalil – seguido pelas principais vertentes da dança tribal. O Dark Fusion – interpretado por Ana Dinardi, Viviane Andrade e Adriana Thomazotti – traz em sua base a construção de personas, caracterizado pela riqueza de expressividade e teatralidade performática. Voltado para a feminilidade afro brasileira, o Tribal Brasil – aqui representado por Aldenira Nascimento, Kayra Bach e Suellen Pérola – apresenta em forma de dança e movimento os arquétipos dos orixás. E, por fim, o Tribal Fusion surge através de performances solos de improviso reunindo todas as participantes numa única tribo.

A Fortaleza da Barra, local escolhido para gravação, possui uma riqueza de cenários contrastantes que revivem a proposta do vídeo. De um lado, o casarão histórico com fragmentos do que um dia foi um forte, do outro a cidade de Santos, em oposição a natureza que se contrapõe com seu mar e sua floresta. A música, concebida exclusivamente para o vídeo, foi composta na íntegra pela percussionista Nanda Rodrigues, mesclando diferentes ritmos na transição entre os diferentes estilos apresentados.

Ficha Técnica

Videomaker: Melissa Art
Fotografia: Lairton Carvalho
Trilha Sonora: Nanda Rodrigues
Performance: Nanda Rodrigues, Juliana Santos, Dayeah Khalil, ViVi Andrade, Ana Dinardi, Adriana Thomazotti, Aldenira Nascimento, Suélen Pérola, Kayra Bach
Locação: Fortaleza da Barra, Guarujá/SP

Vaudeville BellyDance (2017)

Foto: Luís Santos

Num post de blog desmistificando o versus entre o Tribal e a Dança do Ventre no estilo Cabaret, Alexandra Graham compara a arte com a religião por uma razão específica: nossa performance é conduzida por nossas emoções e experiências de vida, e este é o ponto de partida para a concepção do vídeo “Vaudeville Bellydance”.

Anath Nagendra, colaboradora do blog Tribal Archive, foi mais a fundo no tema, colocando o Tribal e o Cabaret como polos extremos de uma linha contínua de expressividade, onde numa das pontas estão as formas mais tradicionais da Dança do Ventre, enquanto na outra ponta se encontram as formas mais experimentais de fusões; e a linha que conecta ambas compreende todas as múltiplas possibilidades de expressão artística que a dança “do ventre” – em seu sentido mais amplo – pode nos oferecer.

Utilizando o ambiente temático do Mausoléu Pub e sua rica decoração como locação, a 3ª edição do projeto experimental de vídeo e dança tem enfoque na individualidade de cada performer, fazendo uso, principalmente, do plano detalhe para filmagem. A trilha reúne as músicas Kitten Pig de Pentaphobe e Rose Zahran por Bashraf Nawa & Yusuf Bey, ambas com traços característicos de melodia steampunk, nos remetendo a bonecas de porcelana, espetáculos teatrais, circenses e similares.

Ficha Técnica

Videomaker: Melissa Art
Fotografia: Luis Santos
Performance: Dayeah Khalil, ViVi Andrade, Carla Mirela e Kel Alves
Locação: Mausoléu Pub, Jundiaí/SP

Melissa Art

Melissa Art

Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Produtora e jornalista, atua com assessoria de mídias digitais para empreendedores e artistas.
Melissa Art

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