Quando a inércia nos mantêm em movimento

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Fonte: matéria do Seattle Times, sobre a performance “Kaash”, de Akram Khan. Link para a matéria completa no final do artigo!

Como assim? Inércia e movimento? Como as duas podem estar juntas?

Dançar é movimentar-se conforme um ritmo, não? Dançar é deixar fluir movimentos de acordo com uma música. Dançar é mexer o corpo. Sem movimento, sem fluxo, não há dança!

Essa é uma das formas mais tradicionais de se definir o que é dança. Porém, o que muitas de nós não percebemos – ou não aprendemos – é que existe uma miríade de tipos de movimento, com suas particulares e características. Rápidos, lentos, intensos, suaves. E momentos sem movimento! Não seria um paradoxo?

Apesar da definição, frequentemente esquecemos dos aspectos que envolvem o “estar parado” dentro do mundo da dança e mesmo em nossas vidas. E com o final de ano se aproximando, as semanas que os antecedem costumam ser muito estressantes na vida de bailarinas e professoras de dança. Ensaios e mais ensaios, eventos borbulhando, mostras de final de ano, confraternizações com danças. Ufa! Não vemos a hora de ter um descanso.

Neste artigo, falaremos um pouco sobre várias facetas que incluem essa característica mais ociosa, que muitas vezes se tornam imprescindíveis para a nossa saúde e qualidade de dança.

Dança & Saúde

Para dançar, precisamos treinar, certo? Devemos ir em aulas, aprender técnicas de movimentos, repeti-los diversas vezes até atingir a maestria. Muitas bailarinas profissionais dedicam horas e horas de seus dias para treinos suados, seja para repetição de passos, criação de coreografias, ou mesmo exercícios físicos e alongamentos para manter a saúde e capacidade corporal.

Afinal, de nada adianta aprender a técnica, se o corpo não está capacitado para executá-la, não é mesmo?

Porém, como muitas sabemos, justamente por causa desses treinos é que estamos propensas a desenvolver lesões. A exigência que cai sobre os ombros de quem quer se profissionalizar (principalmente, mas não apenas) nestas áreas é muito grande – seja de nós mesmas, ou do meio, que nos incentiva a usar quase que literalmente o tempo todo para treinar.

É óbvio que quanto mais nos dedicamos, melhor e mais rápido nos desenvolvemos. Entretanto, frequentemente nos sacrificamos pra tal objetivo, e nem sempre isso é bom. Muitas vezes, o sofrimento e efeitos colaterais de tal dedicação é naturalizado, quando não existiriam se não houvesse tamanha demanda competitiva. Treino excessivo nos expõe a lesões, pequenas a sérias, temporárias a permanentes. Treinos excessivos nos tiram horas de sono e descanso físico. Treinos excessivos nos tiram momentos de vida social e entretenimento, que é tão importante para uma saúde mental e emocional.

Esquecemos que “parar” um pouco para nos dedicarmos à outras tarefas – sejam elas outros projetos ou entretenimento e descanso – são tão importantes quanto exercícios “ativos”. O descanso corporal não serve apenas para “recarregar as baterias” para um próximo ciclo de atividade. Durante o descanso, nosso corpo não apenas se recarrega, mas se foca em integrar as atividades feitas, incorporar seus ganhos, consertar seus problemas.

Além disso, frequentemente desconsideramos nosso ritmo natural por causa da organização que a sociedade nos impõe. Quantas de nós tem que trabalhar ou estudar, e dedicar a dança apenas nos espaços disponíveis? Quantas de nós são naturalmente pessoas vespertinas, que se esgotam pelas tarefas matutinas? Quantas de nós sequer sabe como seu ritmo biológico funciona?

Temos que nos lembrar que para termos uma boa saúde para dançar, é necessário momentos de inércia. Isso não quer dizer, necessariamente, que estamos perdendo tempo, amolecendo o corpo, desenvolvendo sedentarismo. Cada pessoa tem um ritmo ideal, e isso não se refere apenas ao melhor horário para se praticar uma atividade ou a dança, mas também a frequência. Há pessoas que se dão muito bem com exercícios e treinos diários, enquanto outras precisam intercalar dias de descanso e repouso, sem que isso seja um problema. Essa pessoa não é “menos capaz” do que a mais hiperativa. Apenas possui uma rotina diferente, uma biologia distinta.

Não tente impor um ritmo se você percebe que seu corpo, sua mente e seu emocional reclamam. Ouça seu corpo, perceba como seu desenvolvimento se dá, sem se criticar ou forçar um critério ditado por outra pessoa. O corpo não se importa, e ele irá piorar as consequências sobre si se não for ouvido.

Inércia criativa

Pegando carona com o tópico anterior, aqui a questão é um pouco diferente: os momentos em que estamos “paradas”, mas ainda assim, estamos dançando. Mas como?

Há várias maneiras de se explorar a “inércia criativa”, fazendo uma analogia ao ócio criativo: assistir vídeos de dança é uma forma de se estudar, aprender, observar e analisar a dança, sem que precisemos estar em movimento. Montar aulas ou coreografias mantém nossos cérebros ativos com o conteúdo, mesmo que o faça sentada em uma mesa.

Ouvir músicas e visualizar-se dançando tem uma capacidade enorme no nosso desenvolvimento, comprovada até pelas neurociências: descobriu-se que imaginar-se fazendo movimentos – sejam eles exercícios ou treinos específicos, desde que em detalhe e que você já os tenha feito fisicamente – estimula o corpo de maneira equivalente a fazê-lo na realidade (apenas com uma diferença de intensidade. É necessário, aproximadamente, fazer o dobro de visualizações pra atingir um resultado análogo ao físico).

Assistir uma aula, presencial ou não – sentadinha no canto também é válido, pois absorvemos conteúdo quase que da mesma maneira que se estivéssemos de pé praticando. Essa tática, em especial, é muito recomendada justamente para aquelas que estão com alguma lesão e não gostam de perder aulas ou eventos. Se a ferida não é incapacitante, assistir a aula e anotar percepções pode ser tão rico quanto executar as técnicas em questão.

E, claro, é possível estarmos “fazendo nada”, ou fazendo algo totalmente não relacionado à dança, e, de repente, surgir uma ideia ou inspiração para uma performance! Nossa vida não é separada por caixinhas, tudo está conectado. Não tenha receio de se deixar levar por um momento de inércia por medo de perder o fluxo do movimento.

Silêncios e respirações

Esse é um ponto que muitas vezes discerne a qualidade e capacidade interpretativa de uma bailarina: compreender os silêncios de uma música. Chamamos também de respirações, aqueles momentos, costumeiramente transições de frases melódicas, que podemos aproveitar para fazer um “respiro”, uma pequena pausa ou um pequeno movimento muito lento antes de retomar a movimentação.

Apesar de raramente esse trecho ser literalmente uma pausa, ele tem a ver com o assunto deste artigo. Existem muitas dançarinas – sejam apenas alunas ou mesmo professoras ou profissionais – que acreditam que devemos dançar o tempo todo, no sentido de se movimentar sem parar. Ler cada pedacinho da música com algum movimento.

Por mais que saibamos que a dança é, por natureza, um fluxo contínuo de movimento, esses respiros e pausas fazem parte da movimentação, por mais que isso pareça contraditório. Podemos fazer uma analogia com a música em si: é possível haver trechos, ainda que curtos, de puro silêncio, que fazem parte da composição musical. Mas como? Música não é apenas som? Algo que deve ser audível o tempo todo?

Não.

Tanto o silêncio quanto a inércia são ausências, mas que existem no fluxo do tempo. O silêncio é a ausência de som, a inércia é a ausência de movimento, mas ambos existem no fluxo do tempo. Uma música não deixa de existir no momento que surge um silêncio, assim como uma dança não para de acontecer apenas porque a bailarina parou de se mexer no meio da performance.

E, assim como falamos da importância da inércia num contexto de saúde, aqui a importância da inércia – como um respiro ou pausa no fluxo – é um aprofundamento na percepção artística e interpretativa de uma performance. Ela permite que nós, dançarinas, não apenas respiremos (literalmente), como possamos manter o foco de interesse do espectador, troquemos de intensidade sem que isso pareça abrupto, ou simplesmente não cansemos o olhar do público com uma dança extremamente agitada.

Razões e estímulos

Último tópico do dia. Você talvez já tenha conhecido alguma colega, ou mesmo uma professora, que deixou de dançar – definitivamente ou apenas por um período. Talvez você mesma já tenha cogitado parar, por algum motivo ou outro.

A questão aqui é chamar a atenção para a nossa dificuldade em acreditar que “parar” de dançar não é o fim do mundo.

Muitas mulheres começam a dançar em busca de uma atividade física que as entretenha também, que ajude na autoestima, que trabalhe sua feminilidade. Várias dessas obtém sucesso, se apaixonam pela arte e mergulham de cabeça!

Mas o que acontece quando a vida nos força a parar de dançar?

E se uma moça entra em depressão, e mesmo ir nas aulas de dança se torna um martírio, por mais que ela goste de dançar? E se as contas começam a apertar, sem deixar uma sobra para as mensalidades? E se a vida a faz trocar de cidade, onde não há nenhuma escola de dança? E se acontece algum acidente ou lesão que a force a ficar parada por um bom tempo?

Vejo muitas dessas moças resistirem até não aguentarem mais para não largar a atividade, e em alguns desses casos isso não ocorre pelo amor à dança, mas sim pela dificuldade em desapegar-se e em acreditar que esse período de estagnação não será permanente. Muitas sentem medo de não conseguirem mais voltar a dançar, mostrando claramente que a visão que se tem de “parar” é de algo extremamente negativo, um retrocesso, um “ficar para trás”.

Temos de lembrar que, se o contexto de nossas vidas exige uma pausa da dança, isso não implica que nunca mais voltaremos a dançar, não quer dizer que ficaremos para trás, não impede de voltarmos, treinarmos e nos tornarmos excelentes em nossas performances!

Claro que existem casos e casos, mas o ponto é: não veja a estagnação como algo vazio. Preencha-a! Se há amor pela dança, participe da maneira que for possível, em cada momento da vida. Seja de forma mais ativa, mais passiva, seja mergulhando no mundo ou tendo de se ausentar por um tempo.

Você deve estimular a si mesma sobre como quer vivenciar a dança, conforme a vida te leva. Não deixe ser levada pelas exigências deturpadas da sociedade, buscando atingir um objetivo quase que inalcançável! Você é quem melhor sabe quais as suas verdadeiras razões para amar a dança.


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Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.

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