Quando o Versus se une no Ventre

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 O que você prefere? Dança do Ventre ou Dança Tribal?
Prefere um estilo mais “purista”, ou algo mais experimental?
Prefere as melodias emocionantes árabes, ou o beat eletrônico do Tribal?
Prefere um estilo mais glamour de ser, ou o exótico misterioso?

 

Estes são alguns exemplos de questões que surgem quando o assunto é a comparação entre o estilo Cabaret – ou Dança do Ventre “tradicional” – e a Dança Tribal – que aqui inclui tanto o Fusion e seus subestilos, quanto ATS® e fusões experimentais diversas.

E como frequentemente acontece quando as pessoas comparam duas questões, opinando, questionando, discutindo… surge o versus. Temos, como humanidade, o defeito de dualizar as coisas em uma dinâmica conflituosa, tentando descobrir qual das opções é a “melhor”, a “verdadeira”, a “pura e correta”, sem dar a chance de integrá-las numa coisa só (quando possível).

 Obviamente que, em nossa vasta história e diversidade, alguns assuntos não têm como não serem pareados de tal forma, e inclusive alguns serem realmente uma questão de “certo” e “errado”. Porém, no nosso meio da dança, é comum vermos discussões que erguem questões e polemizam assuntos como a origem da dança, qual a forma correta de dançar, qual estilo é melhor, entre outros.


“Eu sou uma dançarina de Tribal, logo, é óbvio que sou inclinada ao Tribal Fusion e outras fusões. Entretanto, eu amo ocasionalmente dançar cabaret, e, claro, assistir grandes dançarinas do Ventre. Nós todos podemos concordar (espero) que uma boa dança é no final das contas exatamente isso – uma boa dança. Só porque pode ser de um estilo diferente não quer dizer que não seja boa.”Alexandra Graham (tradução livre)

Devo dizer que, de maneira geral, tal discussão não leva a nada exceto conflito. Tendemos a querer convencer ou impor nossas opiniões e perspectivas sobre o outro com relação ao estilo que gostamos mais e acreditamos ser mais “verdadeiro”.

Quantas moças perdem a oportunidade de experimentar e se expressar pois acham que não podem vivenciar a dança do ventre E a dança tribal ao mesmo tempo? Quantas pessoas perpetuam discursos invalidando um desses estilos?

“Dança do Ventre é pra sensualizar, competir, exibir o corpo e cultivar o ego.”

“O Tribal não tem estrutura, é só uma (con) fusão de várias coisas, uma bagunça cultural.”

“Tribal e Dança do Ventre são completamente diferentes, ou você dança um ou o outro.”

 Quando na verdade, ambos nascem do ventre. Ambos são “belly dance”. Querendo ou não, a Dança do Ventre é cerne do Tribal. Foi a partir dela que Jamila iniciou suas experimentações e fusões. E, paradoxalmente, a própria Dança do Ventre possui uma origem baseada em fusões.

Catch ya! 

Entendo a “confusão” e dificuldade que muitas devem ter em entender o que é o Tribal – e mesmo a Dança do Ventre. O estilo Cabaret ainda é muito estereotipado, atingindo até mesmo a visão das bailarinas do estilo.

 Posso afirmar, por experiência própria, que tanto o Cabaret quanto o Tribal (este, principalmente) são estilos cuja entendimento da “essência” só será atingido com o tempo. Será estudando, praticando e observando ambas as danças que você ganhará conhecimento e entendimento sobre o que as define. E mesmo quando chegar neste “ponto”, provavelmente terá dificuldade em explicar sobre.

Eu, particularmente, gosto de analisar as danças e tentar compreender o que elas “são”, onde se “encaixam”. Mas faço isso como um exercício, um estudo. Não para fixar algo em um conceito ou regra. Hoje compreendo como a dança é fluida, o potencial expressivo que ela tem – independentemente se for árabe ou do mundo.

Se uma menina – que só fez aulas de dança do ventre – resolve dançar uma música do Beats Antique, por exemplo, e vestir um figurino cheio de penduricalhos e uma profusão de acessórios, será uma performance de Tribal?

Algumas de vocês certamente dirão que não, pois ela provavelmente não executará nenhum passo de ATS® ou Fusion, incluindo apenas seu repertório de Cabaret aprendido. Outras talvez questionem estas regras técnicas, e se preocupem com o conjunto da obra.

E aqui chegamos ao ponto que queria expor:

 A técnica não invalida a arte.

 Ou seja, podemos avaliar, criticar e analisar as definições e execuções de performances de Cabaret e Tribal, procurando estudá-las e compreendê-las, mas isto não deve influenciar em nossa percepção como público, como a fonte perceptiva que busca uma experiência artística.

“Arte é como religião […], é algo muito pessoal e nossas experiências
de vida e emoções irão ditar nossa receptividade de uma performance.” –
Alexandra Graham (tradução livre)

Em suma, podemos visualizar o Cabaret e o Tribal como polos extremos de uma linha contínua de expressividade.
Numa das ponta há as formas mais tradicionais da Dança do Ventre. Na outra, há as formas mais experimentais de fusões. E na linha que conecta ambas existem todas as múltiplas possibilidades de expressão artística que a dança “do ventre” – em seu sentido mais amplo – pode nos oferecer.

 Nesse continuum encontramos as vertentes que puxam mais para a Dança do Ventre, outras que puxam mais para o Tribal, e também uma “região” em que ambas se misturam de tal forma que é – e provavelmente sempre será – praticamente impossível de discernir de a classificação é “ventre” ou “tribal”.

Seguem alguns vídeos a exemplo de como a construção e expressividade das danças podem ser fluídas, ter um maior ou menor grau de diferentes “técnicas”, mas compartilhando uma mesma essência: o ventre.

O primeiro, e mais essencial, mostra, numa única performance, a fluidez e semelhança entre uma dançarina do
ventre e um grupo de ATS®.

 Sedona Soulfire. Esta é uma bailarina que dialoga fluentemente entre os dois estilos. Ela tem uma queda para Tribal e suas fusões, porém expressa uma essência típica da dança do ventre tradicional.

E quando a dança possui elementos de ambos os estilos, que fica difícil sequer de classificar?

 E você, qual sua opinião?

O assunto desta postagem foi inspirado na publicação de Alexandra Graham, dançarina sul-africana, que você
pode ler na íntegra (em inglês) aqui.

Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.
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