Ruth St. Denis: uma reflexão sobre fusões

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Se você é tribalesca, certamente já deve ter ouvido falar de Ruth St. Denis. Não? Pois bem. Ruth foi uma das pioneiras da dança moderna, americana, juntamente com sua colega contemporânea Isadora Duncan, no início do século XX. Ao contrário de Duncan, cujo enfoque principal era a quebra de regras e busca da liberdade de movimento com relação ao ballet clássico, Denis alcançou sucesso ao fusionar elementos de culturas orientais e exóticas em suas performances.

Podemos dizer, talvez, que Denis é como nossa tia-avó, sendo a avó direta nossa amada Jamila Salimpour. Alguém que dançava e ansiava por experimentar e oferecer algo diferente ao público, buscando a realização nas raízes, na ancestralidade, na conexão com o feminino, a natureza, a espiritualidade… tudo isso fortemente guiado pelo misticismo e à exótica estética do Oriente Médio e Extremo Oriente.

“Quando eu vi pela primeira vez uma fotografia em preto-e-branco de Ruth St. Denis, eu fui instantaneamente seduzida por ela, assim como a maioria dos seus espectadores do início do século XX também o foram. Quem era essa camaleoa de outra era vestida como uma deusa egípcia, uma deidade hindu, uma princesa cigana, uma geisha ou mesmo como um pavão indiano?” – Messy Nessy (tradução livre)

Assim começa o texto de um pequeno artigo escrito por Messy Nessy (você pode conferir no original inglês aqui) recheado de belíssimas fotografias da artista. Para as que não dominam a língua, continue lendo, pois a tradução está quase na íntegra!

“A pequena Ruthie Denis cresceu em uma fazendo em New Jersey. Rodeada pela natureza, ela desenvolveu um interesse pela espiritualidade desde jovem. Ela descrevia como, sempre que o sol caía, ‘eu fazia uma pequena e engraçada reverência, quase caindo de joelhos’. Quando ela se mudou para Brooklyn, aos 16, Ruth estava trabalhando em casas de variedades por 20 dólares por semana, 11 performances por dia, mas ela também estava exposta à nova literatura e cultura disponível a ela na cidade. Ela começou lendo sobre filosofia e rituais espirituais de culturas ancestrais, e experimentando traduzir estes temas em dança e coreografia. Em 1904, durante uma turnê com uma companhia de dança, ela viu um pôster anunciando cigarros com deidades egípcias, e foi imediatamente cativada.”

“O encontro casual com uma imagem de Isis, a protetora ancestral da mãe natureza e da magia, iria selar o destino da jovem dançarina, a consolidando em um caminho para recriar o misticismo convencionado pela deusa egípcia e levar para espetáculos mundiais. Com um novo nome artístico, Ruth ‘St.’ Denis deixou sua companhia de dança para se tornar uma artista solo, e mergulhar em filosofias orientais. ‘Radha”, sua primeira produção, extraiu da mitologia hindu e foi interpretada para música trazida de uma ópera francesa, sediada na Índia Britânica, apelando para a mania da virada do século pela exótica do extremo oriente. Foi um hit instantâneo.”

O mais interessante desta pequena matéria é a abordagem não usual que Messy faz com relação ao impacto e à maneira como Ruth incorporou os elementos das outras culturas. Algo que, para a época, poderia ser cotidiano e encantador, hoje percebemos o quanto influenciou e fez parte de questões que tentamos desfazer seus efeitos, como o orientalismo e colonialismo.

“St. Denis iria performar mais de mil e quinhentas vezes e dançar para audiências nobres na Europa, estabelecendo-se como uma estrela solo e pioneira da dança moderna, a primeira a introduzir ideias orientais ao ballet. Infelizmente, o que Ruth também estava introduzindo para a arte (ainda que não intencionalmente) foi o fetichismo e estereotipização étnica, encorajando o público a considerar culturas não familiares como formas de entretenimento. Enquanto ela se movia lindamente, expressando liberdade e espiritualidade, as coreografias e traduções de St. Denis da cultura indiana para o público ocidental não eram culturalmente acuradas.

A dança ocidental geralmente estava sendo separada de suas origens religiosas e espirituais, e mais do que qualquer coisa, Ruth queria reviver isso ao extrair a estética do misticismo do extremo oriente. Entretanto, a autenticidade étnica não era exatamente uma prioridade. Ela tinha elaborados figurinos, escureceu sua pele com maquiagem, usou adereços indianos no palco, e até mesmo recrutou imigrantes indianos, vivendo em Coney Island, para rodeá-la enquanto performava.”

“Ruth encontrou seus figurantes extras enquanto procurava por inspiração na atração principal de Coney Island. Anunciada como “Ruas de Délhi”, era uma réplica da cidade que oferecia um grande espetáculo, com elefantes treinados, dançarinas e um enorme número de pessoas vindas de uma comunidade hindu real, enviadas para a América para o grande show.”

Não há como negar que o sucesso de Ruth coincidiu com o ápice da Europa imperialista, mas estamos livres de tais influências hoje? A conexão pode parecer estranha, mas como eu estava pesquisando sua introdução do “espetáculo exótico” para o balé, isso trouxe à mente um discurso recente dado por Jesse Williams, um dos pioneiros emergentes do atual movimento Black Lives Matter. Citado de seu discurso no 2016 BET Awards:

‘…Extraindo nossa cultura, nossos dólares, nosso entretenimento como petróleo… guetizando e degradando nossas criações e depois roubando-as. Gentrificando nosso gênio e depois nos tentando como fantasias antes de descartar nossos corpos como cascas de frutas estranhas. No entanto, o problema é que, só porque somos mágicos, não significa que não somos reais.’

Muitas vezes, argumenta-se que as raízes do racismo europeu residem no colonialismo, que pintou a civilização não-ocidental como inferior, atrasada e até animalista.”

Em seu artigo, Messy segue comentando como, apesar de Ruth ter tido uma mente relativamente aberta e ter contribuído imensamente na popularização das culturas orientais perante o público ocidental, atualmente não podemos mais deixar de questionar as facetas mais “escuras” desse processo.

Sim, Denis teve um papel importante na modernização e liberdade expressiva da dança, na experimentação com filosofias espirituais e, para nós, tribalescas, também como uma das primeiras artistas a deliberadamente criar hibridizações culturais. Mas devemos lembrar que ela, como artista e pessoa, certamente foi influenciada por seu contexto colonial da época, e consequentemente influenciou de tal maneira seus admiradores e alunos.

Como bailarinas de Tribal, muitas vezes encantamos o público ao trazer para a nossa estética e dinâmica de dança elementos de culturas exóticas – sejam elas longínquas ou tupiniquins – e certamente há a conquista de muitas coisas positivas. Através destas misturas, podemos nos proporcionar experiências pessoais intensas, transformações internas graças ao contato com outras culturas e conexões espirituais profundas, que muitas vezes não conseguimos obter através da cultura ocidental. Além disso, podemos oferecer ao público deleites sensoriais e emocionais com nossas performances, mostrar que o mundo é muito maior e mais diverso, conscientizar sobre culturas oprimidas e criar um potencial de conexão espiritual.

Porém, nos tempos atuais, devemos multiplicar nossa consciência sobre o modo como fazemos isso. Principalmente quando somos da classe branca privilegiada. Devemos nos conscientizar das questões acerca de apropriação cultural – mas sempre propondo a união e troca mutuamente nutritiva entre os lados, ao invés de segregação, assim como procurar saber o que estamos incluindo nos nossos figurinos, nas nossas performances, gestuais, maquiagens, etc.

Devemos abraçar a responsabilidade de hibridizar a riqueza de diferentes culturas para criar novos canais de expressão e aprofundamento pessoal/espiritual, sem fazê-las perder seus simbolismos originais e ofuscar essas raízes muitas vezes silenciadas. Ainda temos muito chão a trilhar para tentar desfazer os males criados pela opressão ocidental branca.

E assim termina o artigo de Messy:

“St. Denis foi uma mulher confinada e presa pela sua época, mas não nos deixemos prender pelos nossos. Vou deixá-los com isso: ‘Uma garota talentosa é o resultado de uma mãe que foi reprimida e em quem é a sua ambição e a cultura.’ – Ruth St. Denis.”

Anath Nagendra

Gaúcha, camaleoa, eterna estudante, pesquisadora, bailarina, professora e coreógrafa de Danças Árabes, Tribal Fusion e Raja Yoga. Fascinada por didática e as variadas percepções da dança.

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