Tribal Fusion em Decadência

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No domingo, dia 23 de julho, Caro Dumanni levantou um importante questionamento sobre a decadência do Tribal Fusion no cenário mundial. “O que está acontecendo com o Tribal Fusion? (…) Passei algum tempo assistindo vídeos incríveis dos melhores momentos da minha vida como público e intérprete e só posso pensar: onde estão todos agora? Porque não podemos tornar este estilo vivo novamente?”

No dia seguinte, Joline Andrade compartilhou publicamente a opinião dada por Hilde Cannoodt, “para mim foi uma das mais completas e está em total harmonia com o que penso sobre este estilo de dança há alguns anos”, disse ela em seu perfil do Facebook, instigando uma discussão construtiva sobre o assunto entre adeptos do estilo, de dançarinos amadores a professores.

Os estilos de dança vêm e vão. Eles sobrevivem, mas estão fora do tempo de alguma forma. Eu lembrei da era do Locking com o Soul Train. Esse era o estilo de dança visto na televisão regularmente. O Locking ainda existe, mas nunca terá esse “boom” novamente porque foi um estilo daquele tempo. Conosco, é um pouco diferente, mas a lógica permanece: houve um período de venda que agora está chegando ao fim. Pelo menos por enquanto. A menos que obtenhamos um “sangue novo” – houveram grandes performances no Tribal Massive este ano que me fizeram pensar: sim, a nova geração!!! Vamos lá! Mas eu não sei o que vai acontecer. Eu tenho certeza que há muitos fatores. O Tribal Fest acabou, o BDSS também. Sobre o Beats Antique, pensei que criaria uma nova geração que quisesse aprender, mas acho que é atraente para um público diferente. O Tribal Fusion sempre foi uma dança realizada uns para os outros (exceto nos anos do BDSS), então o sangue novo nunca foi introduzido. Penso que a solução é pensar a nossa dança de maneira diferente. Não só para criar grandes dançarinos, mas grandes coreógrafos que atrairiam um público atual contemporâneo. Como o hip hop fez. E o flamenco. E o tango. E a dança indiana. Precisamos de experiência. Coreógrafos, professores, organizadores de eventos, organizadores de apresentações e artistas experientes… para que cada evento tenha a maior qualidade possível. Assim haveria valor. Acredito que precisamos afastar-nos da mentalidade de idolatria também. Desse modo, o trabalho se torna mais importante do que o artista. Precisamos pensar mais sobre o nosso trabalho. Passamos muito tempo elevando o nosso nível técnico e tempo insuficiente para pensar sobre como nossa dança se encaixa em um contexto pós-moderno. Nossa dança deveria ser mais do que uma afirmação, deveria ser menos sobre o virtuosismo na técnica e mais sobre o conteúdo. Ninguém vai assistir solo atrás de solo em uma produção de dança contemporânea. Não. Precisamos criar shows que se mantenham como um todo. Ainda não vi nenhum, para ser honesta. Não de Tribal Fusion pelo menos. Mas para isso precisamos de coreógrafos altamente qualificados … um dia isso vai acontecer. Enquanto isso: continuemos aprendendo, continuemos crescendo. Não como dançarinos, mas como artistas. Estude a dança além da dança do ventre. Aprenda o processo coreográfico de outros coreógrafos híbridos. Verifique outros modelos e formas de dança para inspiração. Não para mudar a forma de nossa dança, mas para mudar a forma como apresentamos essa dança para um público… a maioria das pessoas que amam arte e dança tem consumido alguns dos melhores trabalhos de coreógrafos contemporâneos e nós simplesmente não estamos nesse nível em absoluto. Então, só dialogamos com uma quantidade muito pequena de pessoas: outras dançarinas de Dança do Ventre Tribal.

Ah! E precisamos nos afastar do nome TRIBAL FUSION. Está se tornando um problema.

Essa é a minha opinião…

Hilde Cannoodt (tradução por Joline Andrade)

O momento que Caro Dumanni cita foi o auge do Tribal Fusion no cenário mundial. Mas, como Hilde Cannodt aponta, o estilo caiu em decadência com o fim da Bellydance Superstars e o Tribal Fest, evento pioneiro na cena tribal reconhecido mundialmente pela comunidade da dança. “O Tribal Fusion sempre foi uma dança realizada uns para os outros (…). Penso que a solução é pensar a nossa dança de maneira diferente.”, sugere ela. Em comentário, uma adepta do estilo concorda, “para mim, a dança não sabe se vender”, disse ela, atribuindo o sucesso do BDSS a um marketing bem feito. “Era fácil de assistir, era entretenimento, era novidade.”, aponta. “Aqui no Brasil ninguém sabe o que é Tribal Fusion (…) Enquanto a dança não for divertida, atrativa e mais fácil, ela não sairá do seu ‘gueto'”. Também em resposta à discussão, outra adepta relembra os tempos do Tribal Fest, que perdurou por 15 anos, e deixa o questionamento “será que os outros eventos que continuaram darão conta de suprir essa nossa necessidade?”.

Hilde Cannoodt apela para os profissionais do meio para que a dança não se perca: professores, coreógrafos, produtores e artistas experientes. “Acredito que precisamos afastar-nos da mentalidade de idolatria também. Desse modo, o trabalho se torna mais importante do que o artista.”, disse ela, e, por fim, aconselhou: “Estude a dança além da dança do ventre. Aprenda o processo coreográfico de outros coreógrafos híbridos. Verifique outros modelos e formas de dança para inspiração. Não para mudar a forma de nossa dança, mas para mudar a forma como apresentamos essa dança para um público.”. Diante de um mercado de amadores, Joline Andrade justifica que as próprias americanas que criaram e difundiram a dança tribal apresentaram este modo “ídolo” de ser para a comunidade. “Criaram divas solistas, fama, mainstream… Se intitularam como a grande mãe, a rainha…(…) Diante disso os estudantes do estilo se espelham e querem se tornar ícones também, se auto promovendo como profissionais num curto espaço de tempo (…). Assim não tem comunidade que amadureça”.

É inevitável falar de dança tribal e não abordar a questão da apropriação cultural, tema em pauta nos veículos de comunicação. Já apresentamos uma discussão sobre o assunto aqui, envolvendo inclusive a utilização do termo “tribal” – questionamento que Hilde Cannoodt trouxe à tona novamente. Em resposta a um comentário, a tribaldancer Joline Andrade explica: “o termo Tribal Fusion traz um tom colonizador (apropriação cultural) pois, no ponto de vista da cultura privilegiada (brancos ocidentais em sua maioria), o conceito de tribal vai estar relacionado a algo selvagem, marginal, racialmente inferior, desprovido de racionalidade e civilidade. É uma manutenção do pensamento orientalista, que ‘exotifica’ o oriente para torná-lo produto.”. Muitos dançarinos, professores e produtores já deixaram de utilizar o termo e resolveram que tudo é dança do ventre – “por compreender que a modalidade foi e continua sendo construída através de diversos processos de transformação e transgressão social, isto é, fusões/hibridações/remakes”. Aqui no Brasil foi dado preferência ao termo “Dança Étnica Contemporânea”. Apesar dos esforços, é difícil acreditar que o termo “tribal” cairá em desuso, ainda sendo fortemente difundido para se referir ao gênero, como fazemos aqui no Tribal Archive, principalmente pelo seu valor simbólico.

De qualquer forma, é muito bom vermos essa inquietude despertando entre os adeptos da dança tribal. Não podemos deixar que o mercado da cultura e entretenimento nos distancie do que a arte realmente representa para nós. Claro que nem sempre é possível agradar a todos, como num dos comentários onde uma artista critica a fusão com ideologias místicas e esotéricas enraizadas na dança tribal: “é um tal de falar de sagrado feminino… e eu só quero aprender a dançar”. Em contrapartida, outras tantas apresentam ideias e soluções para o meio, como criar espetáculos integrados com outras expressões artísticas, ter mais presença de músicos em eventos, tornar essas produções mais acessíveis ao público, ter mais participação de dançarinas de tribal em eventos diversos, utilizar canais de vídeos como o Youtube para propagar as novas criações no estilo e dar voz a nova geração de dançarinos e a trabalhos mais conceituais – esta última citada por Joline Andrade, que ressalta: “O público cansou, as próprias dançarinas cansaram. A tradição, se não se reinventa, está fadada ao esquecimento. (…) Ou ganhamos autonomia e promovemos diversidade/curiosidade, ou vamos nos esgotar…”

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Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Produtora e jornalista, atua com assessoria de mídias digitais para empreendedores e artistas.
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1 COMMENT

  1. O Tribal Fusion precisa se reconhecer como dança híbrida e explorar os seus limites (ou falta de limites!) em fusão. O nome importa menos do que a proposta. Deixemos que o Ventre fale as mil línguas que deseje falar!

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