Tribalesque

0
12
views

Com participação especial de Lady Evil e show de estreia da banda Pequeno Cabaré Boêmio Itinerante, a segunda edição do Hafla Tribal do Mausoléu Pub (Jundiaí/SP), realizada em agosto de 2017, teve como propósito criar uma noite temática burlesca através de performances cômicas sob apresentação de Marcelo Justino e Fernando Baesso e organização por mim, Melissa Art. Um duo de Marcelo Justino e Eneide Chechinatto, seguido da apresentação do grupo do workshop de dança burlesca com Alesha Artes e a Cia Marcelo Justino com uma performance pin up abriram a mostra de danças intercaladas com a banda, com apresentações das dançarinas Nanda Nayad, Kel Alves, Kayra Bach e Karen Almeida, além de mim, Melissa Art.

Minha motivação para produzir o hafla temático surgiu após revisitar a arte burlesca através do documentário “Burlesque: Heart of the Glitter Tribe”, disponível na Netflix, lançado em março de 2017 sob direção de Jon Manning, trazendo em evidência personas profissionais de artistas burlescos de Portland, Oregon, dentre eles: Angelique DeVil, Zora Von Pavonine, Babs Jamborre, Stage Door Johnnies, Sandria Dore, Isaiah Esquire, Violet Ohmigod, Russel Bruner e Ivizia Dakini. Através de entrevistas, imagens dos bastidores, ensaios e shows, somos apresentados ao outro lado do burlesco que a maioria das pessoas não conhecem: como os artistas se vêem, o que os levou ao burlesco, o que eles procuram retratar no palco, como eles trazem ideias para a performance, como eles vêem o público, sua percepção da diferença entre a dança burlesca e outras danças, as dificuldades de equilibrar relacionamentos com a vida artística, a obsessão pela realização… No palco, eles usam o anonimato para expor sua verdadeira face.

“Todos são lindos para alguém”

Para muitas pessoas, a palavra “burlesco” evoca imagens antiquadas de shows vaudeville e cabaret. Desmistificando: burlesque não é strip-tease. A nudez artística serve a um propósito, muitas vezes crítico sobre o cenário político e social que vivenciamos. O termo “burlesque” vem de “burlar”. Mas, ao contrário do que se pensa, as muitas restrições na apresentação do corpo feminino em detrimento do corpo masculino é contrastante, mesmo no cenário artístico. Como disse Monty Python: o homem nu é engraçado, enquanto a mulher nua é sexy. Atualmente, a comunidade burlesca se dedica à auto-expressão através performance que variam de clássica a cômica, tanto em números individuais como em grupos. No palco, enquanto se despem em performances sexy, engraçadas, elegantes e ultrajantes, esses burlesquers usam seus corpos como um instrumento artístico e contra-cultural.

A bailarina Alesha possui mais de 20 anos de atividade em dança oriental e experiência com pole dance, dança tailandesa e charleston. Em 2014, decidiu se dedicar profissionalmente à arte burlesca e para isso criou a persona Lady Evil. Em entrevista ao Tribal Archive, ela conta que o gosto pela dança vem desde a infância: “eu adorava quando aparecia alguma cena de dança estilo cabaré nos filmes!”. Sua primeira performance como burlesca foi um verdadeiro desafio – ela teve apenas um mês para preparar uma apresentação numa modalidade que conhecida bem na teoria, mas não tinha nenhuma prática, “peguei toda minha base de anos de dança do ventre e adaptei para o burlesco”, diz ela. Desde então, vem estudando e se aprofundando no estilo. “O burlesco me dá muito mais espaço para trabalhar vários temas, compor diversos personagens. É uma delícia!”. Neste ano, produziu a primeira edição do Festival Exotic Burlesque, em São Paulo/SP, tendo como principal intuito criar um espaço para divulgação e apreciação da arte burlesca.

A seguir, no vídeo indicado por Alesha, Isabel Chavarri, uma das maiores burlescas do Brasil, desmistifica alguns conceitos da arte burlesca numa entrevista com o vlogueiro Ian Braga.

Para saber mais, o site Cosmopolitan traz uma lista com 9 itens que possivelmente você desconhece sobre a arte burlesca baseada no documentário sobre a Glitter Tribe, aqui resumido em 5:

  1. Existem diferentes tipos de burlesque – as duas categorias gerais são as clássicas e as neo-burlescas, muitas vezes em performances híbridas. O burlesco clássico tende a ser mais longo, glamouroso e elegante. Já os atos neo-burlescos provocam o humor e a estranheza através de adereços e na combinação com outras linguagens artísticas, tais como o teatro, o canto, pirofagia e o trabalho aéreo.
  2. Os detalhes são incrivelmente importantes – normalmente as apresentações burlescas acontecem mais próximas do público do que outras formas de dança, por isso o figurino e os cuidados pessoais são extremamente importantes. Nada passa batido!
  3. O neo-burlesco não precisa ser sexy, mas, em contrapartida, precisa ser cômico – Babs Jamboree, uma das artistas apresentadas no documentário, traz dois números notáveis: um trajada como um burrito e outro como uma sereia reversa. Esses exemplos mostram que a sensualidade realmente está no olhar do espectador. Como Ivizia Dakini, vencedora do festival Miss Exotic Oregon explica no filme: “Não estou lá para seduzi-lo, estou lá para fazer você rir”.
  4. Burlesque é tudo sobre DIY – o movimento artesanal visa a originalidade das criações, e o burlesco é um reflexo disso. Muitos artistas criam e customizam seus próprios figurinos, um compromisso que não leva só tempo, mas também muito dinheiro. Artistas experientes sempre adicionam ou personalizam suas peças antes de levá-la ao palco.
  5. Os artistas de burlesque realmente cuidam um do outro – são como uma família, na verdade, apoiando-se em todos os momentos, não só no palco. Do amor na comunidade burlesca, Esquire disse: “Há tanto poder em vulnerabilidade, estamos ligados pelo que desnudamos, o que compartilhamos e como nos preocupamos”.

Se você percebeu algumas similaridades com a dança tribal, não foi por menos. A obra colaborativa “Belly Dance Around the World: New Communities, Performance and Identity” (2013) traz todo um capítulo sobre a influência estética na dança tribal por Catherine Mary Scheelar (p. 126 – 132), apontando as muitas diferenças com a dança do ventre, tais como as inspirações góticas e vintages, bem como a arte corporal composta por piercings e tatuagens, dentre outras características. A autora atribui a essas diferenciações do estilo a necessidade que surgiu de procurar novos locais de atuação que ressoassem com a estética tribal, como festivais de música eletrônica, discotecas, aberturas de shows de rock e mostras itinerantes de linguagens artísticas diversas, muitas vezes atuando no mesmo palco com artistas circenses, por exemplo.

“A estética Tribal Fusion muitas vezes chama a atenção para a história sensual da dança oriental à medida que evoluiu com a arte circense americana anterior, o teatro burlesco e o teatro de vaudeville, atuando como significante para o empoderamento feminino (…)”.

The Lady Fred

A maior parte das dançarinas contemporâneas distanciaram-se dessas origens para que a dança do ventre pudesse ser reconhecida popularmente como uma arte clássica, codificada e/ou um autêntico artefato cultural. Ao mesmo tempo, a celebração do burlesco dentro do movimento da dança tribal está contida em significantes pontos da história, talvez como um esforço para distinguir essa forma erótica da dança do ventre de outras danças eróticas modernas (Haynes-Clark apud Sheelar, 2010).

Melissa Art

Melissa Art

Leonina na casa dos 20, Melissa Souza é natural de Jundiaí/SP, mas o coração é de Minas. Produtora e jornalista, atua com assessoria de mídias digitais para empreendedores e artistas.
Melissa Art

Últimos posts por Melissa Art (exibir todos)

Liked it? Take a second to support Tribal Archive on Patreon!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here